25/02/2015 15:46 - Atualizado em 01/04/2015 13:15

A colcha de retalhos do mineiro Marcelo Tofani

Artista se insere no mundo da música com disco homônimo

Felipe Madureira
Guitar Talks
Marcelo Tofani - Foto: Matheus Aragão

Com uma música forte e breve, o cantor e compositor Marcelo Tofani, 18, começa seu primeiro trabalho, apenas voz e violão. A faixa “Escureceu” abre o EP, que tem o mesmo nome do músico. As quatro músicas mostram um artista com uma voz característica, com bastante identidade. 

Duas canções, “Paco” e “Rua Marajó”, foram gravadas no Moxênix Estúdio, em São Paulo, local onde a Sala Espacial ensaia/mora/grava/faz show. Alguns dos integrantes da banda, inclusive, participaram do disco: Pedro Iafelice na escaleta, Alê Iafelice no caxixi, e Toni Rastan nas congas. Rastan foi o cara que convidou Marcelo para gravar no estúdio da Sala Espacial.

“Uai, engraçado você achar isso, a única vez que fui ao Rio foi uma passagem rápida quando eu era criança e jogava futebol”, me respondeu "mineiramente" Tofani, por e-mail, quando eu perguntei sobre o samba malandreado meio carioca de “Samurai”. Ele admitiu depois que a música tem um pouco de swing, mas acredita que aquilo seja alguma coisa mais “roots desengonçada”. Esta última música nada tem a ver, só pra constar, com a homônima de Djavan, é sambinha mesmo. Um "samba de mineiro". E que diferentemente das outras, que são um pouco mais pessoais, “Samurai” carrega com ela um ar de desabafo do artista independente em seu meio incerto e muitas vezes cruel.

Essa e outras coisas você pode conferir na entrevista com esse promissor músico chamado Marcelo Tofani:

Marcelo Tofani - Foto: Chicó do Céu

Guitar Talks - Olá mister Marcelo Tofani, você lançou no final de 2014 o seu primeiro trabalho. De certo modo o EP, “Marcelo Tofani”, discorre sobre sua vida? Ele é pessoal?

Marcelo Tofani - Fala meu camarada! Então, quase tudo que eu escrevo é dessa maneira. Se não é diretamente sobre mim, é sobre algo que vi acontecer, me tocou e eu resolvi falar sobre. Com o EP não foi diferente, ele tem como forte característica isso de ser muito pessoal, é uma exposição mesmo. Muitas vezes soa até como um “querido diário” (risos). Fazer o quê, é sincero!

GT - Ao ouvir o EP, sua música me joga para o samba meio malandreado do Rio de Janeiro. Às vezes ostenta uma pegada meio “indie-mpb”. Explique-me um pouco da sua musicalidade.

Uai, engraçado você achar isso, a única vez que fui ao Rio foi uma passagem rápida quando eu era criança e jogava futebol. Então acho que não me influenciou muito nesse sentido, mas ouço algumas coisas de lá, então acaba refletindo. É, pensando bem a terceira faixa, “Samurai” (que é um samba) tem essa onda meio malandra mesmo (risos). 

Mas eu também não acho aquela coisa extremamente suingada. Tem a veia roots desengonçada minha e do Chicó (parceiro musical de Tofani). Bem, acho que minha musicalidade é um reflexo da minha vida, do meu meio, de tudo que ouço, não entendo muito dessas nomenclaturas, eu só vou lá e faço.    

GT - “Escureceu” é uma música leve, apenas voz e cordas. Qual instrumento foi usado na gravação? Violão mesmo? Tem também um som de vinil no final. Além disso, em minha opinião, a faixa lembra a música do Beirute. Fale um pouco sobre “Escureceu”. 

Sim, foi violão! Um violão agudinho, minimalista e bem melancólico, diga-se de passagem. Eu gosto muito de “Escureceu”. É breve porque tem que ser breve. É uma música que dói mesmo, é de tocar! É forte pra mim. Você achou parecido com Beirute? Não sei... Não saco nadica de nada de Beirute!

GT - Eu achei um pouco (risos).

Tofani ao vivo - Foto: Ester Teixeira Selta Estúdio

GT - E “Samurai”, qual o significado dela?

“Samurai” é meio que um desabafo de dois artistas independentes, falando da dificuldade que é pagar as contas vivendo de arte sincera não só em Belo Horizonte (Minas Gerais), mas no Brasil todo.

Essa desvalorização se deve a tantos motivos que não consigo listar nem 1%. Rola uma cabeça fechada do grande público e isso nem é culpa deles e sim de quem controla a mídia de massa. E eu nem tô falando mal também dos artistas que tão lá nessa panela sinistra. Mas acho que tinha que ter espaço pra todo mundo mostrar seu trabalho sincero e viver dignamente.Eu por enquanto não tenho que pagar aluguel, por exemplo, e já passo algumas dificuldades. Mas daqui uns dias, quando eu tiver, a chapa vai esquentar! Seguimos na luta e equilibrando nas cordas do violão.

GT - Como foi gravar o EP de forma totalmente independente?

Um corre! Muita coisa foi na camaradagem! Praticamente todo mundo que trabalhou nele era amigo. Fui fazendo show e “pagando os trem” na raça. Eu tava fazendo show há um tempinho com as canções que tão no EP e colocava na internet umas demos que eu gravava em casa. Só que eu já tava doido pra lançar um negócio oficial, sabe? 

Gravar as músicas do jeito que eu queria que elas fossem gravadas. Acabou sendo um processo bem rápido. Sou afobado demais! Fico querendo as coisas pra ontem e isso às vezes me prejudica, mas por outro lado também me ajuda a tomar algumas atitudes e me mover.

Tofani - Foto: Aleixo da Cruz

GT - Me conte sobre as participações e apoios presentes no seu EP.

As participações são de amigos meus daqui de BH, como o Chicó do Céu, que eu já citei, e os meninos da minha banda, Téo Nicácio, Rafael Wolbert e Daniel Cosso. Além disso, gravei duas faixas do EP em São Paulo, no Moxênix Estúdio, na casa dos meninos do Sala Espacial. 

Ano passado tive a oportunidade de abrir um show deles aqui em BH, quando ainda era “Teco Martins e Sala Espacial”. E aí o Toni Rastan, integrante da Sala Espacial, que é produtor também, curtiu o meu trabalho e me chamou pra gravar no estúdio deles e fazer um show lá também. 

Gravamos e mixamos em dois dias “Paco” e “Rua Marajó”, que contou com as participações de outros membros da Sala Espacial (Pedro Iafelice na escaleta, de Alê Iafelice no caxixi, e do próprio Toni nas congas). No dia do nosso show choveu muito e tiveram que cancelar. Triste, pois seria meu primeiro show fora do estado. Mas foi divertido demais.

GT - Como é a cena musical em Minas Gerais? Quais artistas locais mais têm a ver com o seu trabalho?

A cena aqui é rica demais. Borbulha! Só vendo pra crer. Começando pelos meus amigos. O Téo e o Chicó, junto com um compositor foda daqui chamado Raphael Sales, têm um trio sinistro chamado “Batucanto”. Tem também o Paquiderme Escarlate, o Tiãoduá,  Lupe de Lupe, Coletivo A.N.A, Thiakov. Vou acabar falando aqui até amanhã se eu falar de todos.

A cena do rap aqui é muito forte também! Gosto muito do trampo do mano Hot Apocalypse, do Djonga, Kdu dos Anjos. Recentemente me apresentei numa exposição de arte urbana chamada “O.Culto” e acabei conhecendo muita galera do rap massa, entre eles um brother chamado Lucas Rasta, que manda umas rimas extremamente anti-babilônicas. Espero que todo mundo que eu falei e que não falei chegue um dia no ouvido da galera aí de São Paulo e dos outros estados. Seria egoísmo se apresentarem só pro pessoal daqui!  

GT - Que artista despertou você para a música? Alguém da família é envolvido nisso?

Não teve nenhum artista específico ou familiar que me despertou, foram mais as circunstâncias e situações mesmo. A música sempre me serviu como companhia/refúgio, sabe?

Lembro que na época que eu tava começando a aprender a tocar, eu gostava de umas coisas folk, tipo Neil Young, Bob Dylan, City and Colour. Curtia muito também o que eles chamavam de “emo” (risos). Chorava minhas pitangas! Na verdade curto tudo isso até hoje, tem uma emoção tão sincera apesar de muitas vezes “juvenil”. 

GT - A última questão é um espaço para você mandar um recado para quem está apoiando seu trabalho e os leitores e leitoras do Guitar Talks.

Quero agradecer a todo mundo que se identificou com meu trampo, obrigado também ao Guitar Talks pelo espaço e pelas perguntas! Se você não é de BH, eu espero muito tocar na sua cidade, gosto muito do que eu faço e vivo o que eu faço. Deus abençoe, é “nói”!

Confira o EP homônimo aqui no GT:

E também o vídeo-acústico de “Templos de Jacarandá”:

COMENTÁRIOS

PUBLICIDADE

RELACIONADAS

FACEBOOK