01/08/2016 15:57 - Atualizado em 30/12/2016 12:34

A serenidade do rapper programado para rimar Doiz D

Ele fala de sua trajetória, relação entre rap e funk e muito mais

Felipe Madureira
Guitar Talks
Doiz D - Foto: divulgação

Quem já colou na região central de São Paulo, que abarca desde o centro antigo até a Avenida Paulista, sabe do que eu estou falando. Volta e meia você é abordado(a) por alguém comercializando algum barato, em busca de uns trocados, ou apenas querendo mostrar o seu trabalho.

Tio, tem muita gente com talento camelando pela Rua Augusta, tomando um biricutico na Praça Roosevelt, em volta dos bares da Rua da Consolação, circulando por aí. Seres de luz, soltando as vibrações pelo asfalto fervente da maior cidade da América do Sul.

Biricutico eu estava tomando em uma terça-feira qualquer na companhia da Carina quando me deparo com um desses seres. O cara era rapper e jogou as rimas na mesa, na lata, na hora. Eu curti a faixa, chamada “Desfibrilador”. Não sei se era o álcool na mente, a abordagem suave e sincera do mano ou as ideias flutuando como um míssil BGM-109 Tomahawk. 

O nome dele é Doiz D, rapper de 24 anos nascido na cidade de Jaboatão dos Guararapes (PE) e radicado em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, desde o ano 2000. O vulgo se refere a varias coincidências, como a casa do músico, na Cohab 2, e o número de filhos – que são gêmeos. Tudo girando em torno do número 2.

Doiz D - Foto: divulgação

As batidas do funk proibido com letras que teciam sobre as vantagens e desvantagens do crime ilustraram o começo da carreira de Doiz D. “Foi justo numa época escolar que chegaram pra gente aquelas letras pesadas falando de facções e a guerra entre elas (...)”, explica o rapper.

Mas muita coisa aconteceu depois disso, como a passagem pela igreja, a quase desistência da música, a paternidade e o lançamento do primeiro disco – no dia 1 de janeiro de 2016. Saiba mais sobre vida e carreira do Douglas, do Dodô, de simplesmente Doiz D.

Guitar Talks - Doiz D me conte um pouco sobre o começo de sua carreira e sua relação com a igreja.

Doiz D – Entre 2007 e 2008 o funk proibido era muito forte em Carapicuíba, trazendo em suas letras o crime com suas vantagens e desvantagens. Foi justo numa época escolar que chegaram pra gente aquelas letras pesadas falando de facções e a guerra entre elas.  Foi daí que eu e uns amigos resolvemos brincar do nosso jeito com as palavras, influenciados pelos Mc´s capixabas, cariocas e paulistas.

Em 2009 resolvi aceitar o convite de Jefferson Carlos (amigo de infância) para frequentar a igreja, e com ele e Marcos Vinícius formamos o grupo Lamentações. Nosso projeto se desfez em 2012 e no ano seguinte eu estava disposto a parar com o rap, cuidando das responsabilidades que a vida impõe.

Mas por intermédio de Thiago Fernandes dos Santos (Chora) eu acabei cantando na "Batalha da Led" (em Osasco), em 2013. Foi o momento mais importante da minha vida. Eu conheci Jonas Ribeiro (Tiroles), que se dispôs a gravar e produzir meu primeiro álbum – lançado no dia 1 de janeiro de 2016.

GT - Qual o significado do seu vulgo? 

Tudo na minha vida gira em torno do número 2. Nasci em 8 de Janeiro de 1992 em Jaboatão dos Guararapes(PE). E cheguei a Carapicuíba no ano 2000. Nunca pensei que seria pai tão cedo, quando soube era de duas crianças, gêmeos, nascidos em 27 de dezembro de 2012. 

Meu nome é Edrizio, mas a família pra facilitar me chama de Douglas ou Dodô, porque desde pequeno sempre foi assim. Meu pai biológico resolveu me registrar com outro nome. Ou seja, sempre vivi duas pessoas também, parece meio maluco, mas é fato. 

Doiz D - Foto: Nicolas Prates

GT - Me fale um pouco do que as pessoas podem encontrar em seu único álbum, intitulado "Programado Pra Rimar".

As pessoas ouvirão um álbum que flerta com a vida, conta histórias, faz críticas sociais. "Programado Pra Rimar" propõe a libertação da carcaça egoísta e hipócrita que levamos pra tantos lugares. E fará o ouvinte sentir o amor, pois só ele trará vitória nessa guerra camuflada. É exatamente esse sentimento que as pessoas vão encontrar.

GT - Eu te conheci vendendo seu disco no centro da capital de São Paulo. Como você vê esse trampo de encontrar os seus ouvintes pelas ruas da cidade?

Desde janeiro eu estou nas ruas vendendo o disco de mão em mão, formando o meu público. Tem sido fascinante viver cada dia absoluto que chega como um presente nessa vereda. Vejo um grande terreno de solo fértil onde planto serenidade, solidariedade e amor.

Doiz D - Foto: divulgação

GT - Realidade Cruel, Trilha Sonora Do Gueto e Ndee Naldinho são alguns dos nomes que você já dividiu o palco. Quais outros artistas você espera fazer a mesma coisa?

Eu tive a oportunidade única de pisar no mesmo palco que essas feras a convite do DNA, grupo de rap de Osasco. Seria uma prova grande de reconhecimento atingir outros gêneros como a MPB, Jazz, Blues e o Soul. Gostaria que a minha sonoridade musical chegasse ao Chico Buarque, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Ed Motta, Gilberto Gil, Tom Zé e por quê não Lenine? 

GT - Uma das coisas que você fez foi improvisos em batidas de funk, no início da sua trajetória. Como você vê a relação entre o funk e o rap?


A relação entre o funk e o rap hoje é polêmica, pois quem viveu os anos 90 não admitirá no mesmo som Brown (Mano) e Naldo, Anitta e Projota, Emicida e Guime entre outros. Porém ambos os gêneros salvaram muitas vidas e sempre vão ser lembrados como o grito dos excluídos, da minoria, dos que estão à margem da sociedade.

Para aqueles que se incomodam com uma simples parceria musical, olhem pro Brasil. O hip-hop só deu certo lá fora porque não houve preconceitos, o sertanejo só desbancou o rock, e hoje é a música mais escutada nas rádios, porque um ajuda a divulgar o outro. Faço minhas as palavras de Sandrão (RZO): “união fica sendo a chave do problema”. 

GT - Quais as diferenças entre a cena na sua cidade, em Osasco e em São Paulo?

Aqui em Carapicuíba saiu o consagrado DJ Cia (RZO) e o Gordão Chefe (Dbs e a Quadrilha). A cena aqui na cidade acontece, mas não com tanta intensidade. Em Osasco temos muitos irmãos talentosos. Zona Oeste é conhecida como Zona Ouro, por aqui você encontra só as peças mais valiosas, muita gente talentosa que merece ser reconhecida e mostrada pro mundo. 

São Paulo é o centro, lá estão as melhores oportunidades, o coração econômico da cidade pulsa exatamente ali, tanto é que muitos ganham visibilidade depois que atingem o centro de São Paulo com suas manifestações artísticas.

Doiz D e parceiros musicais - Foto: divulgação

GT - Você ainda participa da batalha de rap tradicional que acontece todas as sextas em Osasco?

Em 2011 frequentei a Batalha do Beco na Vila Madalena e a famosa Batalha do Santa Cruz. Tive imensa honra de pisar no solo sagrado da Led (“Batalha da Led”, em Osasco). Desde quando eu peguei o disco pra vender nas ruas nunca mais voltei lá, mas em breve farei uma visita aos meus irmãos que mantém com muito respeito a verdadeira cultura do hip hop viva.

GT - Pra encerrar, mande o salve final para os seus fãs e para os leitores do Guitar Talks.

Que o Deus que cada um crê dentro do seu íntimo religioso abençoe demais os que se identificaram com a minha parcela de amor versificada. O carinho de todos faz uma diferença enorme na minha vida. E você, leitor do Guitar Talks que se desprendeu de alguns minutos particulares pra dar total atenção para esse bate-papo saudável, e compreendeu com seriedade essa quimera desperta que vivo, uma palavra só resume de forma digna esse momento: gratidão.

Ouça o som do Doiz D:

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