13/09/2017 16:00 - Atualizado em 30/10/2017 19:47

A arte para os passantes de Daniel Codespoti

Músico divulga seu trabalho autoral pelas ruas e conta sobre influências e a dificuldade de viver de arte no Brasil

Marcos Ferreira
Guitar Talks
Daniel Codespoti faz um bom e velho rock, mas foge de rótulos - Foto: divulgação

Daniel Codespoti é um ótimo retrato da boa arte brasileira. Reúne talento, técnica, criatividade e conhece todos os percalços do seu ofício. Não são poucas as pedras no caminho.

Quase um ano após lançar o disco “Música para Ninar Monstros”, gravado e divulgado de forma independente, o artista paulistano segue fazendo seus shows no espaço mais democrático que existe; a rua.

Este último trabalho, inclusive, é a reunião de toda a carreira de mais de uma década. Composições já registradas anteriormente de forma amadora, ganharam nova roupagem e uma produção com mais requinte.

A voz forte e um mergulho em elementos irmãos do rock dão o tom das canções que compõem o disco. Entre as 9 faixas, todas envoltas de violões em uma atmosfera folk, destaques para “Galeão de Bobagens” e “Umbrais”, com histórias e metáforas que valem horas de papo.

Nessa entrevista, dá para perceber que Codespoti gosta de longas conversas. A mente fértil para se expressar também se revela em sua caminhada como músico, artista plástico e professor.

Com opiniões um pouco apocalípticas sobre o mercado fonográfico (mas distante do discurso vitimista), ele discorre sobre a relação com seu pai (homenageado na já citada “Umbrais”), o que pensa de tocar em espaços públicos e os planos para o futuro de um músico independente.

Daniel Codespoti - Foto: divulgação

Guitar Talks - Você tem um trabalho bem rico. É difícil rotular, mas você conseguiria definir qual o estilo da sua obra?

Daniel Codespoti - Ah, muito obrigado. A ideia sempre foi fazer Rock n’ Roll com banda e tal, mas as circunstâncias da vida nos empurram para lugares inimagináveis. Se você me perguntasse há 10 anos se eu lançaria um álbum como o “Música para Ninar Monstros”, cheio de violões e canções mais lentas, eu negaria veementemente, mas acontece que os planos e as ideias foram se transformando no meio do caminho. Do mesmo jeito que acordei para o rock em meados dos anos 90, abri os olhos para o blues, folk, MPB, funk etc. Hoje costumo dizer que eu faço “folk furioso” (risos). Mas brincadeiras a parte, acredito que de uma forma ou de outra, o que corre nas minhas veias é o bom e velho Rock n’ Roll.

GT - As faixas do seu último disco “Música para Ninar Monstros” trazem muitos elementos. Poderia falar das inspirações para este trabalho, para o título e o processo de gravação?

Isso tudo é muito louco porque todo o processo criativo que envolve esse álbum foi forjado por circunstâncias externas. Pelo fato de sempre ter sido um artista independente e solitário, dificilmente fazer parcerias, dispor de pouco dinheiro para produção e gravação do material, vi-me completando um pouco mais de uma década de carreira na música, com um número considerável de boas composições que haviam sido gravadas com uma qualidade sofrível. Basta ouvir o EP "Garagem Acústica" que isso fica bem claro. Senti que aquele era o momento de parar e gravar esse material com um pouco mais de qualidade. Pensei em fazer dois álbuns. O primeiro seria composto pelas minhas músicas mais introspectivas, apoiado em harmonias e riffs comandados por violões de 12 cordas, flertando com o folk e o country. Na época ouvi muito o trabalho do Geraldo Roca, Leonard Cohen, Nick Cave, Secos e Molhados, fora as baladas clássicas das bandas de Rock dos anos 60, 70, 80 etc.

O nome surgiu em um momento em que eu estava maldizendo alguns colegas de profissão (risos) quanto ao teor fofo das letras, dos nomes das músicas, álbuns e videoclipes. Parecia que “ser fofo” era a palavra de ordem para um povo na cena independente, porque essa estética havia dado certo para meia dúzia de gente. Aí começou aquela onda de “fofura” e “gratidão” só para tentar conseguir mais likes, seguidores, views, plays e tudo mais. Isso me deu no saco e resolvi escarnecer a coisa batizando meu álbum de “Música para Ninar Monstros”. O mais doido é que quando juntei o nome, com a imagem da capa e o teor do disco, a coisa ganhou outra conotação e sem querer acabou por defender bem aquele conjunto de canções. O segundo álbum ainda está por vir e será composto por músicas bem mais pesadas, agressivas, com guitarras bem distorcidas e muita acidez nas letras. 

Daniel ao lado de seu pai Arnaldo Codespoti - Foto: frame reprodução

GT - Seu trabalho é amplo em sonoridade, tanto vocal, quanto instrumental e nas letras. Daí enquanto ouvia o seu disco, recebi a notícia do ranking do Spotify, no qual predomina funk e sertanejo, quase sem espaço para os demais gêneros, principalmente para os derivados do rock. Como você enxerga esse momento cultural?

Putz... Isso é assunto para horas e mais horas de papo, mas para encurtar a conversa, minha opinião é de que tem que haver espaço para todos os estilos. Isso não ocorre porque há (e não é de hoje) uma máfia brutal que triangula entre os meios de comunicação, produtores culturais, políticos e a galera que coloca a grana na coisa toda. Esse povo decidiu por “N” questões que também desencadeariam mais mil horas de discussão, que a bola da vez seria o sertanejo e o funk. Claro que essa é uma análise bem rápida, superficial e pessoal. Sou um cara muito pessimista e o que vejo é um cenário bem apocalíptico. Não acredito que estes estilos estão em alta apenas porque é o que o povo quer ouvir. É só olhar para estes mega festivais de rock custando uma fortuna e com venda esgotada de ingressos.

GT - “Umbrais” é uma das músicas das quais mais gostei no disco e de quebra você foi super feliz no clipe. Poderia nos contar um pouco sobre seu pai (Arnaldo Codespoti), sobre a letra e a ideia da montagem do vídeo?

Na Avenida Paulista - Foto: Paula Yida

Cara, essa música foi a última a entrar no álbum e é a única inédita pra valer. Meu pai era um médico muito querido por todos aqui nas Perdizes. Um cara genial em muitos aspectos e com uma personalidade muito difícil de lidar; descendente de calabrês para você ter uma ideia da encrenca. Sempre nos demos muito bem apesar de discordarmos muito também. Essa música é uma homenagem aos nossos melhores e piores momentos... Sei que muita coisa entre nós ficou mal resolvida e não acho isso necessariamente um problema. Creio que fizemos o melhor que pudemos como pai e filho.

Além de médico, ele escrevia muito bem e esse era um ponto que nos conectava bastante. Montar o vídeo foi uma delícia graças a todas estas filmagens que ele nos enchia tanto para fazer. Meu pai sempre foi fissurado em registrar momentos e esse era um ponto em que discordávamos. Este clipe está aí para provar de que ele estava certo nesse caso (risos), assim como em muitos outros também.

GT - Você tem bastante material em inglês e passou a optar pela composição em português. Como e por qual motivo se deu essa transição?


Bom, isso aconteceu porque acabei me dando conta que meu inglês sempre foi muito limitado. Desde 2004 escrevia poesias e contos em português. Pensei que se fosse ficar no Brasil fazendo música, para mim faria muito mais sentido desenvolver uma linguagem própria em minha língua mãe. Mas não larguei completamente a escrita em inglês. Todo o meu trabalho com a banda Pandora’s Cabaret é em inglês e sou responsável pela maioria das letras. O ponto de partida para realizar essa transição foi com a música “Galeão de Bobagens” há mais de dez anos. Sua versão original era em inglês e se chamava “Out of Control”. 

GT - "Galeão de Bobagens" é uma música muito importante para você e abre o seu último álbum. O que a essa canção representa na sua carreira, por quais oceanos navega esse galeão?

Sem dúvida. Como eu disse, foi o ponto de partida para desenvolver minha escrita em português e de certa forma acabou por desencadear uma série de eventos e reflexões muito importantes sobre quem eu gostaria de ser no universo musical, tanto no que diz respeito à estética, quanto a posicionamento de mercado e postura como artista. Esse galeão cheio de bobagens navega por águas obscuras, através de tempestades intermináveis e em rota de colisão com um mundo que para mim faz pouquíssimo sentido. 

GT - A questão da arte é algo que está no seu DNA. Como começou sua vida com a música?

Comecei efetivamente aos doze anos de idade com um velho violão abandonado no armário do quarto dos meus pais. Sempre gostamos e desfrutamos muito de vários tipos de arte. Meu irmão é alucinado e um grande expert dos quadrinhos e do cinema. Meu pai era fascinado por cinema e música. Ele tocava um pouco de teclado e tinha um ouvido muito bom para melodias. Minha mãe é ultra eclética. Consegue ouvir na mesma playlist “Black Sabbath”, “Alice Cooper”, “KLB”, “Nando Reis”, “Carpenters” e “System Of a Down”. Sou cria dessa miscelânea absurda de gostos tão diversos.

Foto: divulgação

GT - Para divulgar seu trabalho você optou pelas ruas de São Paulo. Como é essa relação com o público itinerante e o que te motiva em tocar em espaços públicos?

Para mim, a grande onda de tocar na rua é a sinceridade do público. Ninguém pagou para te ver e ninguém é obrigado a ficar te assistindo. Quem gosta para, contribui, dança, canta e sorri. Quem não gosta, faz cara feia, passa rápido, fala mal ou ignora. É simples, sem intermediação da mídia, contratante, bar, casa de show e tudo mais. Acho que combina com o meu jeito solitário de ser e fazer as coisas.

GT - Tocar nas ruas é mais uma falta de opção de mercado ou um lugar democrático para o artista independente?

Arte na rua existe há muito tempo em qualquer lugar do mundo. Aqui em São Paulo ainda há muito preconceito, mas creio que a globalização da informação, somada a lei de alguns anos atrás que permite e de certa forma lastreia quem vive dessa prática, trouxeram para o paulistano outra forma de enxergar estes profissionais, que na maior parte das vezes eram vistos como desocupados ou vândalos. Outra coisa que contribuiu muito com este cenário foi o fato de termos a principal avenida da cidade fechada para carros aos domingos. O espaço vira palco para muitos artistas mostrarem seus trabalhos. Todos estes fatores ajudam a tornar a rua um ambiente menos hostil para todos, mas especificamente no meu caso, optei pelas ruas porque não tenho público para encher um bar. Podemos gastar horas discutindo o papel dos bares, casas de shows, centros culturais e outros lugares no incentivo à música autoral, independente e a cultura de forma geral, mas a realidade nua e crua é que, a maioria dos lugares, só quer trabalhar com quem leva público. E eu entendo isso. Discordo de muitas coisas, mas me solidarizo muitas vezes com o outro lado por inúmeras razões. Sendo assim, para eu fazer um show em uma casa, preciso ter um público mais numeroso.

Foto: divulgação

GT - Você também é artista plástico e suas obras caminham muito pelo lado obscuro e poético. Como é essa sua relação com o desenho?

As artes plásticas são outra forma de me expressar. Minha formação acadêmica é em artes visuais, licenciatura. As temáticas são as mesmas, mas a linguagem é diferente. No fim das contas tudo se mistura e dentro de mim estas fronteiras são bem nebulosas. Tenho no desenho, na música e na literatura os meios e as ferramentas ideais para exorcizar meus demônios e procurar alento para os “males da alma”.  

GT - Como professor de música, você dissemina conhecimento e técnicas para alunos de diversas idades e graus de aprendizado. Qual a motivação em lecionar sobre artes?

Cara, lecionar é uma coisa muito louca. E essa é uma questão que gera muito ruído dentro de mim. Amo lecionar, mas nem sempre foi assim. Nunca fui bem na escola, sempre fui um aluno disperso e desinteressado. Trabalho dando aulas desde os quinze anos de idade para conseguir dinheiro. Até meus vinte e poucos anos eu enxergava lecionar apenas como um meio para sobreviver, já que o sonho de viver da minha música ficava cada vez mais distante. Acredito que este seja o caso de quem não necessariamente faz o que ama, mas que aprende a amar o que faz. Para mim, poucos prazeres no mundo substituem o de ver na cara de uma pessoa com vontade de aprender a satisfação de entender um conceito ou tocar uma música que gosta.

GT - Quais os próximos passos do seu trabalho artístico?

Estou começando a arrecadar fundos para a pré-produção do álbum contíguo ao “Música para Ninar Monstros”. Se tudo der certo e os percalços do caminho forem devidamente driblados, final do ano que vem sai o “Delirium Tremens”. A ideia é continuar com os desenhos, pinturas, esculturas e fotografias. Vamos ver, corre o risco de dar certo (risos).

GT - Gostaria de deixar algum recado aos seguidores do Guitar Talks e quem acompanha o seu trabalho?

Gostaria em primeiro lugar de agradecer a vocês do Guitar Talks por sempre apoiarem meu trabalho e promoverem espaço para nós, artistas autorais e independentes. Gostaria também de agradecer muito a todos os amigos, fãs e familiares que acompanham minha luta para tentar produzir um trabalho de qualidade. Forte abraço e nos vemos pelas ruas! “Boat Drinks”.

Ouça o álbum “Música para Ninar Monstros” no Spotify:

Ou ouça no YouTube aqui

Assista ao clipe de "Umbrais":

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