29/08/2016 13:30 - Atualizado em 06/09/2016 00:24

10 cantoras brasileiras e as obras que marcaram a década de 70

Os anos dourados da música nacional destacaram grandes vozes femininas

Redação
Hoje é Dia

Hoje é dia!
Por Ladenilson Pereira, professor e historiador


Hoje é dia de retornar ao rico cenário musical da MPB dos anos 70, só que desta vez destacando as vozes femininas do período. Ao contrário da atualidade, quando assistimos aos talentos de Ana Carolina, Zélia Duncan, Vanessa da Mata, Marisa Monte, Isabella Taviani e outras assinando várias faixas (ou muitas vezes todo o disco), naquele tempo, elas pouco compunham, praticamente apenas interpretavam. Aliás, nem precisavam criar, pois era o apogeu de autores como Chico, Caetano, Gil, Milton, Ivan, Bosco, Paulinho, Gonzaguinha, Roberto, Erasmo... Elas se encarregavam de, com a doçura e suavidade que só o belo sexo é capaz, dar vida a tão inspirados versos. São tantos os álbuns que marcaram época (e tão exíguo o espaço da coluna) que vou me limitar a falar de apenas um LP de cada cantora. Deixo bem claro que não se trata de um ranking, é apenas uma lista guiada por critérios pessoais, mas que possibilita uma visão abrangente daquele momento tão especial para a canção nacional. Momento em que as esperanças e temores do País (que começou a década com os “Anos de Chumbo” de Médici e terminou com a “Abertura” de Figueiredo) eram embalados entre revelações e jovens veteranas.

BETH CARVALHO – “CANTO POR UM NOVO DIA” (1973)

Primeiro LP de sua carreira totalmente dedicado ao samba, (ou melhor, quase integralmente, pois nele há o tradicional frevo de Nelson Ferreira “Evocação nº 1”). O repertório apresenta desde nomes legendários como Mário Lago (“Salve A Preguiça Meu Pai”), Mano Décio da Viola (“Hora de Chorar”) e Nelson Cavaquinho (“Folhas Secas”, gravado por Elis Regina no mesmo ano) aos então jovens Paulo César Pinheiro (“Velhice da Porta Bandeira”), Martinho da Vila (“Fim de Reinado”), João Nogueira (“Mariana da Gente”) e sua irmã Gisa Nogueira (“Clementina de Jesus”, homenageando a tradicional sambista). Sua incansável pesquisa pelas raízes do mais brasileiro dos ritmos, já naquele tempo a levava às quadras das escolas de samba e aos morros e subúrbios, nos quais recolhia composições, divulgando autores pouco conhecidos fora destes nichos ou revelando nomes. É o que se pode perceber com a faixa-tema feita por Garoto da Portela, “Se É Pecado Sambar” (Manoel Santana), “Homenagem a Nelson Cavaquinho (Carlos Elias) e “Memória de Um Compositor” (Darcy da Mangueira). Os sambas de roda cuja autoria se perde no tempo, sendo transmitidos de boca a boca, apareciam no medley formado por “FLOR DE LARANJEIRA”/ “SEREIA”/ “SÃO JORGE MEU PROTETOR”. Tendo a cantora encontrado o seu caminho, este título deu início a uma discografia praticamente anual nesta sua cinquentenária trajetória.

CLARA NUNES – “CLARIDADE” (1975)

Vindo de uma carreira iniciada em meados dos anos 60 com um repertório basicamente romântico (e resultados pouco expressivos), a cantora estava numa trajetória ascendente desde 1972, quando passou a incorporar o samba e o visual afro em suas apresentações. As seiscentas mil cópias deste álbum eram, naquela ocasião, recorde para uma intérprete do sexo feminino no Brasil, sepultando de vez a ideia de que mulheres não podiam ser campeãs de venda. O resgaste da tradição africana e sua importância na cultura brasileira apareciam em “A Deusa dos Orixás” (Romildo Bastos / Toninho Nascimento). Havia espaço para jovens autores como Ivor Lancelotti (“Às vezes faz bem chorar”), Paulo César Pinheiro (com quem se casaria naquele ano e seria seu companheiro até o fim da vida, “Bafo de Boca” e “Valsa de Realejo”) e Alberto Lonato (“Sofrimento de Quem Ama”). Os grandes bambas e o peso de sua tradição vinham com Cartola (“Que Sejas Bem Feliz”), Ismael Silva (“Ninguém Tem Que Achar Ruim”), Aníbal da Silva (“Tudo é ilusão”) e Nelson Cavaquinho (“Juízo Final”). A Portela, escola do coração da cantora, jamais poderia ficar de fora e comparecia com Monarco (“Vai Amor”) e Candeia (responsável por “O Último Bloco” e o maior sucesso do LP, “O MAR SERENOU”).

ELIS REGINA – “FALSO BRILHANTE” (1976)

Considerada por boa parte da crítica como a maior cantora brasileira de todos os tempos, ela provou à exaustão toda a sua categoria. O show deste álbum ficou em cartaz no Teatro Bandeirantes por mais de um ano, a atestar o brilho da obra-prima. Embora o título remeta à canção “Dois pra lá, dois pra cá” (João Bosco – Aldir Blanc), esta não consta do repertório do LP. A dupla é aqui representada por “Um por Todos”, “Jardins de Infância” e “O Cavaleiro e os Moinhos”. Outro medalhão presente é Chico Buarque com “Tatuagem”. Canções estrangeiras são personificadas por “Fascinação”, “Gracias a la Vida” e “Los Hermanos”. Uma das cantoras que mais concedia oportunidade a jovens autores, desta feita proporcionou a Thomas Roth a chance de revelar seu talento com “Quero”. Contudo, quem fez as mais notórias canções deste título (fundamental na carreira da Pimentinha) foi Belchior, responsável por “Velha Roupa Colorida” e “COMO NOSSOS PAIS”.

FAFÁ DE BELÉM – “ÁGUA” (1977)

Ainda uma jovem cantora, a paraense chamava a atenção por sua voz afinadíssima e seu visual despojado. Sorridente, descalça e com uma saia rodada, ela lembrava a beleza brejeira de tantas meninas do interior do País. Talvez até por isto, seu repertório exibia canções de forte cunho rural e regional como “Araguaia” (Rinaldo Barra), “Leilão” (Hekel Tavares e Joracy Camargo), “Canção Passarinho” (Luiz Violão), “Cordas de Espinho” (Luiz Coronel e Marco Aurélio), “Ave Maria dos Retirantes” (Alcivando Luz e Carlos Coqueijo) e “O Andarilho” (Dailton Voleger e Orlando Silveira). Havia espaço para o clássico sertanejo “Ontem ao Luar” (Catulo da Paixão Cearense) e para uma rara parceria de Caetano Veloso e Roberto Menescal (“Cidade Pequenina”), bem como para inspiradas canções dos mineiros Fernando Brandt e Milton Nascimento (“Sedução” e “Raça”). O sabor e a cor do norte do Brasil estavam indelevelmente presentes nos dois maiores sucessos do LP, ambos criados a partir de versos de seu ilustre conterrâneo, o poeta Ruy Barata (“Foi Assim” e “PAUAPIXUNA”).

ALCIONE – “PRA QUE CHORAR” (1977)

Em seu terceiro trabalho, a cantora maranhense revelava seu melhor LP até então. O segredo estava no repertório, apresentando várias vertentes do samba. O resgate da musicalidade de sua terra natal aparecia com “Tambor de Crioula” (Júnior/Oberdan/Oliveira), acompanhado do samba da Bahia de “Feira de Rolo” (Ederaldo Gentil) e “Ilha de Maré” (Walmir Lima/Lupa). O samba romântico aparecia através da dupla Totonho e Paulinho Rezende, responsável por “Correntes de Barbante” e “Solo de Pistom”; o mesmo Rezende, agora acompanhado de Paulo Debétio, assinava “Recusa”. Na mesma linha, o ex-integrante dos Golden Boys, Roberto Corrêa, unia-se a Sylvio Son em “Eu Vou Deixar”. Igualmente comerciais foram as faixas “Não Chore Não” (de Tom e Dito), “Pedra Que Não Cria Limo” (Vevé Calazans e Nilton Alecrim) e “Pandeiro É Meu Nome” (Chico da Silva e Venâncio). Contudo, minha predileção vai para a FAIXA-TEMA, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

NARA LEÃO – “OS MEUS AMIGOS SÃO UM BARATO” (1977)

Ainda não havia a moda de lançar discos de duetos, e por isto mesmo, este despertou muito interesse. Foram chamados onze compositores para dividir os vocais de suas criações com a intérprete. Os convidados refletiam as várias fases da carreira da artista, havendo medalhões da bossa nova como Roberto Menescal (“Flash Back”), Carlos Lyra (“Cara Bonita”), João Donato (“Amazonas”) e Tom Jobim (“Fotografia”), do samba de morro como Nelson Rufino (“Nonô”) e da música nordestina como Dominguinhos (“Chegando de Mansinho”). As demais faixas couberam a alguns dos nomes mais marcantes dessa privilegiada geração: Gilberto Gil (“Sarará Miolo”), Caetano Veloso (“Odara”), Edu Lobo (“Repente”), Erasmo Carlos (“Meu Ego”, para variar numa parceria com Roberto; ambos os autores seriam interpretados pela cantora no álbum seguinte “E Que Tudo Mais Vá Para O Inferno”) e Chico Buarque (“JOÃO E MARIA”).

MARIA BETHÂNIA – “ÁLIBI” (1978)

A irmã de Caetano Veloso era naquela ocasião a cantora de maior vendagem do País, e com este LP em particular, chegou a disputar a liderança do mercado com Roberto Carlos. Também não era para menos; era a primeira vez em que uma artista brasileira superava a casa do um milhão de cópias graças a um repertório primoroso, no qual praticamente todas as faixas foram executadas nas rádios. Havia espaço para veteranos como Paulo Vanzolini (“Ronda”), Adelino Moreira (“Negue”, um grande sucesso de Nelson Gonçalves nos anos 50), Rosinha de Valença (“Interior”) e Dona Ivone Lara (“Sonho Meu”), bem como para ilustres colegas de geração da intérprete como o mano Caetano (“Diamante Verdadeiro” e “A Voz de uma Pessoa Vitoriosa”), Chico Buarque (“O Meu Amor” e “De Todas as Maneiras”), Djavan na sensacional faixa-tema e Gonzaguinha (“EXPLODE CORAÇÃO”).

GAL COSTA – “GAL TROPICAL” (1979)

Fechando uma década repleta de excelentes trabalhos, a baiana consagrava sua fórmula de sucesso: mesclar clássicos com faixas de seus contemporâneos. Considerada a maior intérprete de Caetano Veloso, retribuía a honraria entoando duas joias do compositor: “Força Estranha” (sucesso na voz de Roberto Carlos no ano anterior) e “O Bater do Tambor”. O Rei e Erasmo assinavam “Olha” e a metalinguística “Meu Nome é Gal” (com direito ao duelo de agudos entre a cantora e a guitarra de Armandinho). A lista de autores da atualidade se encerrava com Luiz Melodia e sua “Juventude Transviada”. No mais, o título era composto de grandes músicas do passado, que ganhavam ares de novidade por conta da vibrante voz de Gal: a guarânia “Índia” (que já havia sido sucesso em sua voz em 1973), “Noites Cariocas” (letra de Hermínio Bello de Carvalho para o choro de Jacob do Bandolim), o samba-canção “Estrada do Sol” (Dolores Duran e Tom Jobim), “Samba Rasgado” (Portello Juno e W. Falcão) e o bolerão “Dez Anos” (Rafael Hernandez). Completando a lista dos autores de ontem vinha Dorival Caymmi, (homenageado com todo um disco em 1976, o célebre “Gal Canta Caymmi”), retornando com “A Preta do Acarajé” e Braguinha, com uma marchinha dos anos 30, sucesso originalmente com Carmen Miranda, “BALANCÊ”.

SIMONE – “PEDAÇOS” (1979)

A ex-jogadora de basquete conseguiu aliar sucesso de vendagem e de crítica neste álbum em que o lirismo e a política andaram de mãos dadas. Chamava a atenção também o elevado número de faixas compostas por mulheres (coisa incomum à época) como Fátima Guedes (“Condenados”), Sueli Costa (“Cordilheira” e “Vento Nordeste”) e Isolda (“Outra Vez”, enorme sucesso de Roberto Carlos em 1977). No mais, uma forte presença de medalhões da nossa música como a dupla Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, que haviam composto “Cigarra” para o LP anterior (a canção de tão bem-sucedida acabou por se transformar em apelido da artista) e desta feita forneceram “Itamarandiba” e “Povo da Raça Brasil”. Ivan Lins e Vítor Martins traziam “Começar de Novo” (originalmente uma metáfora política para o processe de Abertura, tornou-se um hino feminista ao ser escolhido para o tema de abertura da série global “Malu Mulher”) e “Saindo de Mim”. Chico Buarque estava presente com “Pedaço de Mim” (sucesso da “Ópera do Malandro” composta no ano anterior) e “Sob Medida” (também gravada por Fafá de Belém no mesmo ano). Contudo, o maior destaque deste trabalho foi “TÔ VOLTANDO”, uma clara alusão à anistia e à volta dos exilados, elaborada por Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.

ZIZI POSSI – “PEDAÇO DE MIM” (1979)

Em seu segundo LP, a cantora contou com a direção de Octávio Burnier que também forneceu duas canções: “Dança Infernal” e “Recreio” (soltando a voz ao lado da intérprete nesta última). Como tantas outras intérpretes, mesclou passado e presente em seu trabalho; o samba-canção de Lupicínio Rodrigues (“Nunca”) estava ao lado da bossa nova de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (“Vontade de Ninguém”). Havia lugar para o maldito Jorge Mautner (“Chuva Princesa”), e também para os novatos Eduardo Dusek (“Ave”) e Marina e Antônio Cícero (“Alma Caída”), bem como para os já consagrados Chico Buarque na faixa-título, Ivan Lins (“Choro das Águas”), Moraes Moreira (“Acordei” e “Fruto Maduro”) e Caetano Veloso (aqui numa inusitada parceria com Beto Guedes, “LUZ E MISTÉRIO”).

Ladenilson Pereira

Ladenilson Pereira

Formado em História e Direito pela USP, Mestre em Educação pela Uninove, Professor Universitário na FALC (Faculdade da Aldeia de Carapicuíba), Professor de História no MED Vestibulares e também leciona na rede pública estadual paulista. Ele colabora com o Guitar Talks desde setembro de 2013. Exerce seu primeiro mandato como vereador de Carapicuíba.

COMENTÁRIOS

PUBLICIDADE

RELACIONADAS

FACEBOOK