06/04/2017 22:39 - Atualizado em 13/04/2017 23:30

PMA é ok, mas ser honesto é mais legal

O cenário das bandas, das bajulações e da falta de verdades

Matheus Krempel
Hey Amigos!
Imagem: reprodução

Hey Amigos!
Por Matheus Krempel

Nessa semana recebi a visita de um amigo que além de ser um artista genial, também é um grande conhecedor de música e da cultura pop em geral. Discutimos algumas ideias relacionadas ao meio musical underground tupiniquim, remoemos algumas culpas e juntos chegamos a algumas conclusões.

Algumas são bem óbvias para muitos, outras nem tanto e algumas delas podem até soar ofensivas, mas o principal de tudo o que, foi descobrir que alguém pensa como eu. 

1) Se você não está ganhando dinheiro com a sua banda, alguém está

Essa é uma máxima que eu levei quase vinte anos para aceitar. Dentro do cenário independente, muitos artistas se sentem culpados por pedirem um cachê, outros têm vergonha de cobrar pelos seus CDs e camisetas e alguns aceitam inclusive o infame "pay to play". É uma covardia que foi imposta quase como forma de cultura por muita gente envolvida. 

Uma vez, em uma cidade do interior de São Paulo, presenciei uma cena extremamente revoltante. Uma banda de amigos havia dirigido 12 horas - apertados dentro de um carro - para poderem se apresentar nessa cidade.

Foto: reprodução

Após o show, um grupo de meninos se aproximou da banquinha de merchandising dos caras e um deles começou: "Porra! Que show foda o de vocês. Puta som!". Os caras agradeceram, é óbvio, e aí veio a pérola: "Me DESCOLA um CD aí". Óbvio que os caras responderam algo do tipo, "Pô cara, nem dá. Tá baratinho! 10 reais. Compra um aí". E sabe o que eles receberam? Outra pérola: "Porra! Já foram mais humildes, hein?!". E isso não foi um caso isolado. Posso afirmar. Eu mesmo já passei por isso, várias vezes.

O que muita gente esquece é que para lançar um CD, fazer um fanzine, gravar um clipe e viajar com esse material debaixo do braço, existe um investimento financeiro absurdo. Aí você me diz: “Pô! E aquele papo de `All About Love´, faça você mesmo e faça com amor?” Concordo.

Faça você mesmo e sempre com muito amor, mas não se envergonhe de cobrar um mínimo que seja para que esse amor não acabe nunca. Já dizia minha mãe que "o amor e uma cabana bastam, mas quando o dinheiro acaba, o amor sai pela janela".

Enquanto você está tocando, muitas vezes de graça, o bar continua vendendo cerveja (a preços exorbitantes), o público continua consumindo e no final você é o filha da puta, porque não quer dar CD na faixa. 

2) Torneio de Bandas

Está aí uma coisa da qual eu me orgulho de nunca ter participado. Campeonato de banda. Bandas pagam inscrição, produzem material para enviar, convocam os amigos, os parentes, marcam todos os amigos na porra do evento e no final imploram por um voto para ganhar um videoclipe, horas de estúdio, um contrato de gaveta, seja lá o que for.

Arte não é esporte. Ninguém é melhor do que ninguém e nunca será. Toda música tem a sua beleza e seus admiradores, nem que sejam apenas seus amigos.

Não existe lógica nenhuma nisso.

Quem é melhor? Nirvana, Alice in Chains ou Soundgarden? Já pensou um torneio de bandas com esses candidatos? Não seria estúpido demais?

Conselho do Tio Krempel, não caiam nessa. Você pode até achar que não, mas sempre vão existir cartas marcadas. Se você tem tanta confiança no seu potencial, use isso para te levar adiante e evite as armadilhas e possíveis frustrações que poderiam abalar todo o seu desenvolvimento.

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3) Seja honesto com seus coleguinhas

Uma vez um amigo, há muito tempo, quando estávamos começando a gravar nossos primeiros materiais, me perguntou o que eu achava da banda dele (mesmo sabendo que eu achava a banda dele incrível e não perdia nenhum show).

Respondi que achava a banda legal, bem entrosada e que ao vivo soava bem foda, mas que a gravação deixava um pouco a desejar. Ele me agradeceu e disse que achava a minha banda mais foda que a dele. Eu tomei um susto, fiquei indignado de ouvir aquilo e respondi: "Sim! Minha banda é bem mais foda que a sua, concordo, mas acho que sou suspeito para falar. Afinal de contas, essa é a minha banda, porque essas são minhas músicas e se eu não for o cara que mais acredita nela, como posso esperar que alguém acredite? Se eu fosse você, eu me esforçaria um pouquinho mais, até você começar a acreditar um pouco mais na sua banda, do que na minha. Aliás… sua banda, na minha opinião, é a segunda mais foda do rolê". Rimos muito e isso virou piada interna.

Você não precisa ser político o tempo inteiro, elogiar todo mundo e acreditar que isso vai te trazer algum benefício ou amizade fiel. Sinceridade virou artigo raro no mundo inteiro e não só eu, mas muita gente que conheço implora por mais opiniões verdadeiras e menos bajulações infundadas e descabidas. 

Esse último parágrafo também serve para nossos jornalistas, que por medo de ferir nossos sentimentos, enfileiram um caminhão de adjetivos elogiosos a cada resenha que escrevem ao invés de darem sua opinião verdadeira com algum embasamento crítico construtivo. Não tenham medo. Tenham argumento e sejam sinceros. 

Por hoje é só, amiguinhos! Espero não ter magoado ninguém, são apenas algumas reflexões que eu tive (e tenho) com alguns grandes amigos.

Matheus Krempel

Matheus Krempel

Matheus Krempel toca desde 1995 no The Bombers e também canta no Reverendo Frankenstein. Já escreveu para o fanzine Rebel Magazine e colaborou com matérias para diversos sites como Zona Punk e Blog n´ Roll A tribuna. Há 10 anos atua no mercado da moda de luxo, na área administrativa, inclusive já tendo ministrado palestra na Faculdade Unisanta.

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