02/02/2017 11:56 - Atualizado em 09/02/2017 01:21

Então você é músico!? Do baixo a guitarra dando um rasante no vocal

A vida real e a carteirinha da OMB

Matheus Krempel
Hey Amigos!
Foto: reprodução

Hey Amigos!
Por Matheus Krempel

Quando eu era moleque, pedi aos meus pais um baixo de presente de aniversário. Naquela época, na minha cabeça, meu pequeno mundo de Bob, a coisa era simples. Todos queriam ser guitarristas e guitarras têm seis cordas. Por outro lado, seria muito mais fácil fazer parte de uma banda se eu tivesse um baixo, até porque, como grande fã de Sid Vicious, eu achava que não seria preciso sequer tocar uma nota certa para ser membro de uma banda.

Meus pais foram na loja de instrumentos musicais, explicaram que eu tinha "apenas" 15 anos e que não sabia tocar nada. O vendedor então sugeriu que eles comprassem uma guitarra, porque dessa forma eu teria mais condições de explorar um instrumento e assim mais tarde poderia decidir se eu iria querer ficar no baixo ou partir pra guitarra.

Desde aquele dia eu venho tentando aprender a tocar guitarra. No início, eu tocava porcamente uns licks de guitarra, que na minha cabeça (e acredito que só nela) soavam como os do Slash.Tentei aprender músicas de outros artistas, mas não sabia nem formar um acorde.

Mesmo assim, formei uma banda, me apresentando como guitarrista solo. Disse isso porque eu tinha certeza de que solo era só ficar fazendo a guitarra grunhir como o Kurt Cobain (aparentemente) fazia. E eu segui assim até a hora que o baixista da banda, me ensinou a fazer o tal do bordão, power chord ou sei lá eu o que. Lembro até hoje das palavras dele, “Aprenda isso e você poderá tocar todas as músicas do mundo”. 

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Voltei pra casa e tive a brilhante de ideia de compor minhas músicas. Era bem simples, eu juntaria os três acordes necessários e teria minha música. Acrescentando uma letra, de preferência em inglês para ninguém entender, ninguém poderia questionar nada e eu oficialmente teria uma composição.

Fiz uma e a banda se empolgou. Me nomearam vocalista e me estimularam a trazer mais daquelas músicas. Posso dizer que foi assim que eu me transformei de aspirante a baixista a guitarrista e vocalista de uma banda de rock aos 16 anos.

Semana passada, como alguns de vocês já estão sabendo, eu fui demitido do meu emprego formal, de escritório, bonitinho cheirosinho fashion week. Era véspera de feriado e eu precisava encontrar um recurso próprio para vencer aquela sensação de fracasso. Ou eu me arriscava em apostar umas moedas na Lotofacil ou???

Voilá!!! Minha banda.

No dia seguinte, transformei minha casa em um estúdio de gravações e finalizamos o disco novo daquela minha banda que estava gravando desde setembro. Se você não sabe que banda é essa… Procure saber! (Né Gustavo Trivela?!). 

Minha autoconfiança subiu às alturas.

No dia seguinte, fui fazer a prova da Ordem dos Músicos do Brasil, famosa OMB, para poder fechar um esquema de show que me obriga ser um, digamos assim, músico profissional, registrado, carimbado, protocolado e com a mensalidade em dia.

Me avisaram que seria uma prova difícil, mas que não era preciso me preocupar, afinal ´você é um guitarrista super criativo, bla bla bla´.

Fui até a sede da Ordem dos Músicos e recebi uma prova em folha sulfite. Olhei para a prova, a prova olhou pra mim. A clave de sol ria da minha cara da mesma forma que a gentil atendente sorria pra mim.

Me levantei, disse que não entendia nada do que estava escrito ali e entreguei a prova em branco. Em uma esperança de não soar tão ridículo, mencionei que era autodidata. Ela disse que tudo bem e que agora eu seria chamado para fazer uma prova prática.

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“Matheus!” - disse a voz grossa de um homem vindo de dentro de uma sala. Eu entrei, havia uma câmera ligada e pronta para me filmar tocando. Ele me cumprimentou, eu liguei minha guitarra, dei uma afinada na menina e disse que estava pronto.

Ele me olhou e começou me questionando o motivo da minha prova escrita ter sido entregue em branco. Respondi que era autodidata. Ele fez questão de dizer que isso significava que eu tinha um ZERO na parte escrita e que para poder ter a certificação, eu deveria mostrar que sabia tocar o instrumento.

No Problemo!

A minha mão começou a suar frio. Eu olhei pra ele. Ele continuava me encarando com uma cara não muito amigável. “Faça uma escala em Lá maior”, ele me disse. Eu toquei na quinta casa da sexta corda. Ele levantou a sobrancelha. Toquei a sétima casa da quinta corda e ele balançou negativamente a cabeça, tentei outra opção, mas ele me interrompeu. “Que tal uma melodia instrumental?” e eu devolvi um solinho tosco de rockabilly.

E então ele me perguntou o que eu sabia fazer com a guitarra. Aí eu toquei umas duas músicas minhas, mostrei uns vídeos da banda no YouTube e ele se levantou. Foi até um piano e me pediu para acompanhar as notas que ele estava tocando...

Sid, oh Sid - Foto: reprodução

“Na guitarra não, amigo. Na voz”. E lá fui eu, escutando as melodias que ele fazia no piano e respondendo no gogó.

Ele fechou o piano e me disse: "Você não tem a menor condição de ser qualificado como guitarrista. Sinto muito. No entanto, por conta de toda a sua trajetória e de uma certa habilidade vocal, vou te aprovar… como Cantor Popular".

E assim saí de lá, com a moral levemente abalada, mas com a minha carteirinha de músico profissional.

Cheguei em casa e voltamos à nossa gravação. Estávamos gravando as vozes do disco. Em determinado momento alguém sugeriu que eu fizesse uma melodia xis. Fui lá e fiz a tal melodia, de primeira, o que de certa forma surpreendeu a todos.

Recebi um, “Parabéns mano. Ficou Foda”.

Só consegui responder: "Mermão, sou músico profissional. Quer ver minha carteirinha? Cantor Popular". 

É… como diria o grande filósofo, Alexandre Magno, a gente se diverte com o que tem.

Matheus Krempel

Matheus Krempel

Matheus Krempel toca desde 1995 no The Bombers e também canta no Reverendo Frankenstein. Já escreveu para o fanzine Rebel Magazine e colaborou com matérias para diversos sites como Zona Punk e Blog n´ Roll A tribuna. Há 10 anos atua no mercado da moda de luxo, na área administrativa, inclusive já tendo ministrado palestra na Faculdade Unisanta.

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