20/10/2016 11:43 - Atualizado em 21/10/2016 02:12

10 músicas para reverenciar a poesia na coluna desta quinta-feira

Data dedicada aos poetas traz as palavras em formato de canções ao Guitar Talks

Redação
Hoje é Dia

Hoje é dia!
Por Ladenilson Pereira, professor e historiador

20 de OUTUBRO é o DIA do POETA. A relação entre música e poesia é muito antiga. Basta lembrar que a Literatura em Língua Portuguesa surgiu no contexto do Trovadorismo, com as cantigas medievais entoadas por trovadores e menestréis. Desde então, vários autores se tornaram ainda mais conhecidos com o registro de seus versos por grandes vozes da música popular. A playlist de hoje apresenta dez exemplos de textos musicados e interpretados por nomes da MPB. Saliento que não é um ranking, trata-se apenas de poesias que particularmente me agradam e que pretendo dividir com os amigos leitores e internautas. Procurei não me tornar repetitivo tanto em relação aos escritores homenageados como no tocante aos intérpretes escolhidos.

Um dos poetas da lista é Vinicius de Moraes - Arte: reprodução

Em destaque no banner da home, a obra "O Menino Triste com a Flor", por Dilima.

CECÍLIA MEIRELES - “ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA” - (CHICO BUARQUE)

A relação do craque da MPB com a literatura vai muito além dos romances que escreveu. Nas suas centenas de parcerias, o artista sempre foi letrista. Em apenas três oportunidades, colocou música em versos de outra pessoa. Quem seriam os responsáveis por tal proeza? Poetas, é claro! Os felizardos foram Hermínio Bello de Carvalho em “Chão de Esmeraldas”, João Cabral de Mello Neto (nos textos de “Morte e Vida Severina”, destacando-se “O Funeral de um Lavrador”) e Cecília Meireles neste poema que foi tema do filme “Os Inconfidentes”. Vale atentar para os versos “Toda vez que um justo grita/ O carrasco vem calar/ Quem não presta fica vivo/ Quem é bom, mandam matar...” com um caráter marcadamente político em 1970, ano de seu registro no álbum “Chico Buarque de Hollanda nº4”.

PAULO LEMINSKI – “PROMESSAS DEMAIS” - (NEY MATOGROSSO)

O poeta paranaense possuía vínculos estreitos com a música popular, estabelecendo parcerias com nomes do calibre de Caetano Veloso, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, entre tantos outros. A obra em destaque une o talento do escritor à música de Moraes Moreira e Zeca Barreto. Sucesso imediato do álbum “Matogrosso”, foi utilizada como tema de abertura do folhetim global “Paraíso”, em sua primeira versão, no ano de 1982.

CASTRO ALVES – “O NAVIO NEGREIRO” – (CAETANO VELOSO)

Integrante do premiadíssimo disco “Livro” de 1997, utiliza o Canto IV da obra-prima do poeta romântico num ritmo próximo do rap. Mais uma mostra da genialidade caetanesca, pois o papel de conscientização política desempenhado no passado pela poesia condoreira foi, em certa medida, assumido na contemporaneidade pelos MCs da cultura hip hop com o seu canto-falado.

OSWALD DE ANDRADE – “RELICÁRIO” / “ESCAPULÁRIO” - (JOÃO BOSCO e MARTINHO DA VILA)

Os versos irreverentes e provocativos dos dois poemas de Oswald de Andrade foram unificados sob o nome de “Pagodespell” e entoados de modo festivo pelos dois cantores. A faixa do álbum “Dá Licença, Meu Senhor”, gravado em 1995 por João Bosco, de certo modo brinca com o duplo sentido do vocábulo “pagode”; na atualidade, um subgênero do samba, mas na origem, significava festa, exatamente o que se percebe no “baile da Corte”... 

CACASO – “LERO-LERO” - (EDU LOBO)

O autor, um dos grandes expoentes da “Poesia Marginal” ou “Geração Mimeógrafo” faz um retrato bem mordaz do brasileiro, que não desiste da luta, apesar de todas as dificuldades do cotidiano. Vale salientar o caráter ativo dos versos “A minha vida eu levo a muque/ do batente/ pro batuque/ faço como me convém...” em franca oposição à passividade do consagrado samba de Zeca Pagodinho que diz “Deixa a vida me levar”... A faixa foi um dos destaques do álbum “Camaleão”, de 1978.

MANUEL BANDEIRA – “TREM DE FERRO” - (TOM JOBIM)

Notório apreciador de poesia, o Maestro Soberano escolheu esta faixa para concluir aquele que seria seu derradeiro trabalho, “Antônio Brasileiro” de 1994. Tendo a colaboração da Nova Banda, a interpretação ressalta todo o caráter lúdico dos versos do autor pernambucano.

FLORBELA ESPANCA – “FANATISMO” - (FAGNER)

Uma das faixas mais brilhantes do álbum “Traduzir-se” de 1981, traz os dramáticos versos da poetisa lusitana numa das melhores interpretações da carreira do cantor cearense. Saltam aos nossos ouvidos o sofrimento íntimo da autora, e sua vida breve, porém intensa.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – “JOSÉ” - (PAULO DINIZ)

O autor mineiro, numa de suas últimas entrevistas, em 1987, dizia ter certeza de que seria esquecido, pois o Brasil não tem a tradição de preservar a memória de seus grandes autores. Considerava que apenas dois poemas sobreviveriam no imaginário nacional: o polêmico “No Meio do Caminho” (por conta do impacto que o acompanhava desde o seu lançamento) e o texto acima mencionado, por conta do sucesso de sua interpretação pelo cantor Paulo Diniz.

FERNANDO PESSOA – “TODAS AS CARTAS DE AMOR” - (MARIA BETHÂNIA)

A cantora baiana, fã confessa do escritor lusitano, há décadas declama trechos de suas obras em seus shows. O primeiro registro deste fato data de 1971, no álbum “Rosa dos Ventos”. Naquela ocasião, os poemas funcionavam como uma espécie de vinheta separando momentos do espetáculo. Três anos mais tarde, em “A Cena Muda”, fragmentos dos poemas eram colocados a serviço da canção que seria executada em seguida, como por exemplo “A Sonhar Eu Venci Mundos” era declamado antes da canção “Sonho Impossível”. A ideia foi tão bem sucedida que o álbum duplo “Imitação da Vida”, de 1997, foi totalmente concebido a partir de Fernando Pessoa, com as músicas servindo de apoio à poesia. Os versos em tela vêm acompanhados do antológico bolero “Mensagem” de Cícero Nunes e Aldo Cabral. Uma brilhante intertextualidade!

VINÍCIUS DE MORAES – “O DIA DA CRIAÇÃO”

O texto literário (que seria utilizado em vários espetáculos e que foi registrado em disco em três oportunidades) foi musicado pela primeira vez para “Vinícius e Caymmi no Zum Zum”, de 1964. O show e o disco que se seguiu contaram com o conjunto do maestro Oscar Castro Neves e a participação do grupo vocal Quarteto em Cy, alternando números musicais dos dois mestres de nossa música. A participação do Poetinha no LP se encerrava com esta faixa que apresenta alguns detalhes pitorescos. O artista, que fora católico fervoroso em sua juventude, na idade madura alternou momentos de agnosticismo com aproximação com o candomblé. Muito provavelmente, esta relativa falta de religiosidade explica o caráter irônico que permeia praticamente todo o texto.   Outra curiosidade é o verso “A vida vem em ondas, como o mar”, que inspiraria Lulu Santos e Nelson Motta décadas mais tarde.

Ladenilson Pereira

Ladenilson Pereira

Formado em História e Direito pela USP, Mestre em Educação pela Uninove, Professor Universitário na FALC (Faculdade da Aldeia de Carapicuíba), Professor de História no MED Vestibulares e também leciona na rede pública estadual paulista. Ele colabora com o Guitar Talks desde setembro de 2013. Exerce seu primeiro mandato como vereador de Carapicuíba.

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