09/01/2017 17:22 - Atualizado em 19/01/2017 16:45

O Elo Perdido e Obscuro da Zona Lost Paulistana: "Os Fabulosos da Vila Formosa"

Texto final do especial de 4 partes

Eduardo Osmédio
Jardim Psicodélico

Os Radiophonicos

Quatro rapazes da Vila Formosa influenciados pela geração beat, surf-music, R&B e soul, formaram a banda Os Radiophonicos em meados de 2005. Das esquinas, o grupo de amigos Renan Moncoski (vocal/guitarra), Anderson Endelécio (guitarra), Gustavo Gasques (baixo) e Rodrigo Gimenes (bateria) tocou em vários inferninhos.

Em 2006, eles gravaram um EP com três músicas. E quatro anos depois, tocaram na Virada Cultural do Estado de São Paulo. No mesmo ano, os caras atravessam o Oceano Atlântico para sua primeira turnê internacional, passando por Portugal, Espanha e Inglaterra.

No show de Leiria (Portugal) Os Radiophonicos encontraram os amigos dos Haxixins, tocando juntos no mesmo show, numa noite em que aterrorizaram as pessoas e as menininhas da cidade com sua euforia roqueira.

O sucesso foi tão grande que ganharam o prêmio de banda revelação no “Festival Pop Eye” em Cáceres (Espanha). Em sua segunda tour pelo velho continente, e com algumas mudanças na sua formação - entrada de Raffa Machado (guitarra) no lugar de Anderson, e Vitão D´Mata (bateria) no lugar de Rodrigo - a banda pôde receber em mãos o prêmio dado no outro ano.

Os quatro rapazes da zona leste seguem, então, rumo à Inglaterra, onde fazem shows no Motherlive, um dos principais centros da cena musical alternativa inglesa, e no festival “Freshn’ Up”.

Outro pico que o quarteto se apresenta é o Cavern Club, solo sagrado do rock onde eles realizam um show impecável, sendo aplaudidos de pé pelo frio público inglês - concerto que ficará na memória pelo resto de suas vidas.

Edu Osmedio - Foto: divulgação

De volta para casa e com a alma lavada, a banda entra em hiato, mas em meados de 2016 volta com a sua formação original. Agora eles andam ensaiando novas músicas e fazendo alguns shows, mas com o intuito de gravar um disco.

Martins, O Velho Lobo do Rock 

Em meados de 1996 conheci Martins, O Velho Lobo do Rock, através do saudoso Joquinha, seu cunhado que tocava violão. O cara apresentou clássicos do lado b, através da sua coleção de vinil e as raridades em fitas cassetes. 

Com uma afinidade logo no primeiro encontro, quando também conheci San Serarte da banda Os Viajantes, Zé Carlos o Martins, já tinha uma estória que se passou no final dos anos 60 para 70 - com sua famigerada extinta banda chamada Lacan.

Sua casa, mais conhecida como House do Martins, nos anos 70 fora um lugar de muitas festas, lugar de referência, onde existiam várias equipes de som se intercalando e principalmente as bandas ao vivo. As festas eram regadas a muito sexo, drogas e a tudo de exagero. 

No figurino usavam calças boca de sino, camisas coloridas, roupas tipicamente bem jovem guarda, onde a banda sempre fora o elemento principal, onde cada show era um novo show. Com suas luzes negras e psicodélicas feita na hora do show com seus retroprojetores, além dos valvulados amplificadores de época como: os tremendões Gianini, Palmer, Power, Phelpa. 

A estética era tão importante quanto à música, e sem esquecer-se de seus famosos ponches estrategicamente feitos para voar com seus ingredientes secretos, que eram consumidos em poucos minutos, mas que levavam para outra dimensão. 

Esses anos dourados e coloridos que derretiam se congelaram no tempo por uns 20 anos por causa da vida pacata e familiar que Martins levaria casado por algum tempo. Depois da separação, ele viveu cada dia como se fosse o primeiro e último, com toda experiência que pudesse sugar, como um Cazuza enrustido ou um Baudelaire perdido no espaço. 

E para essa nova geração vazia, a House do Martins fora o “Vale do Vinho”, o lugar de muitos encontros musicais e amizades, já que os loucos poetas artistas rebeldes malditos Franceses tiveram o Hotel Pimôdan, Os Velhos Lobos tiverem a casa do Martins. 

Lugar onde um grupo de amigos, Angelo, Mauricio, Marcos, Edu, Fabiana, Sergio, Sandro, Paulo, Marta, Alexandre, Aírton, Daniel, entre outros, buscavam experiências lisérgicas de vida, sentindo na pele os efeitos alterados da mente em forma de música, acreditando ser possível, através da arte, dar um passo a frente na busca de novos pensamentos.

Martins gravou algumas canções no velho tascam de quatro canais, fitas que estão guardadas para serem lançadas em breve. Fora o primeiro Velho Lobo, fundador da banda Alkatéia, morrendo em dezembro de 2006, em plena sabedoria, no auge dos seus 60 anos, de puro rock, efusão ao extremo, transbordando de criatividade, e vivendo cada dia uma loucura como se fosse a última - contida e esquecida pelo tempo, mas na memória de seus parceiros musicais e amigos que nunca o esqueceram.

Os Velhos Lobos continuam na ativa, mesmo 10 anos após a morte do Velho Lobo. O projeto visa gravar as músicas e suas parcerias também. Seu legado musical será registrado em breve por Edu Osmédio (guitarra), Mauricio Silva (baixo), Angelo Aquino (vocal), Sir Uly (bateria) e Rafael Cirilo (teclado).

Nessas pequenas e singelas estórias de pessoas conhecidas e desconhecidas, tivemos um pouco da amostra cultural de um underground que atravessou oceanos, registros que viajaram pelo mundo afora através da internet. 

Os Radiophonicos - Foto: divulgação

Bandas da Leste, Oeste, Norte, Sul, sem Rumo, buscando ultrapassar fronteiras com seus ideais, embora hoje em dia a grande mídia e a maioria das pessoas têm culpa de matar a arte, vendida por milhares e milhões e migalhas. 

A busca por esse espaço de evasão e invasão, através de qualquer veículo que possa levar sua arte, chegando aonde for, embora grandes malditos de nossa cultura vivessem o ostracismo, só sendo reconhecido postumamente. Mas o que é o sucesso? Ser reconhecido pela sua quantidade de milhões de views no Youtube, ou ser autêntico, sem se vender, sendo verdadeiro com sua arte, sendo realizado e feliz no que faz?

Não importa. Cada um tem sua estória, imagine quantos artistas nesse momento estão entretidos com sua arte, compondo, gravando, tocando. Existem milhares, de todos os estilos, o universo não gira em torno de você amigo e para de olhar para seu umbigo. 

Entre várias bandas que não mencionei por falta de espaço, temos aquelas que gravaram em fitas cassetes, CD, discos de vinil, ou não gravaram nada, apenas fizeram algo, tocaram ao vivo sem nenhum registro, só na mente daqueles de que ouviram o som, os que estão na ativa ou não. Pessoas que fazem por onde e merecem todo nosso respeito, grandes guerreiros da arte.

Nas quais, só para citar algumas bandas tão importantes quanto aquelas que eu escrevi como: Mamagumbo, Sotádicos, Léo Tomaz, Os Beneditos, Zói de Gato, Los Borges, Auto Descontrole, Vidal França, Bataclã 69, Cirilo Amém, Sprint 77, Os Covêro da Quarta Parada, Kid Válvula, Dudé e a Máfia, Acas, Vaca de Pelúcia, Super Drink, Panoramas, Janie Jones, Muff Burn Grace, Os Grampos, Lejonti Trio, Deoders, Kalisse, Santo Veneno, Ciro Madd, Barata Suicida, Leatherfaces, Sirk, Renato Dantas, Massahara, Surfin Bastard, Moon Patrol, Sala Especial, Impressão Analógica, H2L, e Fragata.

Britônicos, Andeor, Thomas Incao, Danny Caldeira, Os Cavernas, Vieira Pato, Nhocuné Soul, Taquicardia, Projeto Nacional, Silêncio, Leandro Petroni, Adolfo Lopes, João Arjona, Injustiça Social, Rafael Rap z/l, Zumbi Rap, L.S.D, Rock Nacional, Robson Pimentel, Menarca, Mango Trip, Alkatéia, Messias Messina, Meramolim, Os Viajantes, Dharma Samu, Teenage Drunken, Renato Pop, Messias Messina, Meramolim, a importada Capitão Bourbon do nosso querido Vander. E também A Turba que apesar de ser carioca, e seu mentor gaúcho, com certeza seu coração é da zona lost. Glauco Caruso - o batera/mentor da banda - tocou com os míticos Júpiter Maça e Defalla.

Também temos projetos como Música na Rua, Som Nosso, Cabeças em Transe, Doces Tardes de Domingo, Festival Jardim Colorido, Festival Latitude Zero, Banana Pop, Jardim Psicodélico, A Idade da Terra em Transe, Movimento Ocuparte, Sarau na Padoka, entre outros.

Os lugares que sempre se empenharam em trazer boa música e cultura para a população periférica e esquecida, Bar do Frango, Espaço Cultural Mamberti, Reversão, Willie Dixon Bar, Associação Casa de Cultura Sapopemba, Bar do Aranha, Vídeo Clube Charada, Formigueiro, Bar do Tom, Caac, Menino Muquito Bar, Fox Rock Bar, Black Wind, Komb Bar Z/l, Zundap, Tijolinho na Satélite, Casa de cultura São Mateus, Boutique Brechó, Boteco no Caneco, todos os Ceus da prefeitura.

E para as próximas falarei da nova safra envelhecida das bandas sobreviventes na cena...

Ouça o som da banda Os Radiophonicos abaixo:

E aqui também:

Confira Nhocuné Soul:

Sala Especial:

Bataclã 69:

E Os Velhos Lobo com Gerson King Combo:

Eduardo Osmédio

Efervescente ativista cultural da zona leste paulistana, Edu é baixista da banda Os Haxixins, além de tocar guitarra nos grupos Os Subterrâneos e Velhos Lobos. Participou do Doc. “Quando Éramos Príncipes” - estória da fase psicodélica de Ronnie Von. Acompanhou Walter Franco e Gerson King Combo. Ele produz projetos culturais como Som Nosso, Cabeças em Transe e Jardim Psicodélico.

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