01/12/2016 11:32 - Atualizado em 15/12/2016 11:01

When the angels sing; a morte está aí e sempre estará

Faça o melhor que possa ser feito e siga em frente

Matheus Krempel
Hey Amigos!
Imagem: reprodução

Hey Amigos!
Por Matheus Krempel

Odeio pensar, falar e escrever sobre isso, mas por mais que eu evite ela sempre está lá a espreita, esperando o momento certo para aparecer. Minha cabeça me pede para ignorar isso e seguir em frente, mas eu não consigo evitar. 

Sempre me lembro daquela ampulheta no quarto da minha tia, escorrendo areia de um lado para o outro. Outra coisa que eu sempre gostei de fazer era ficar na janela observando o trânsito, com os carros parados, as luzes acesas, enquanto os meus pais saíam para tomar cerveja com os amigos.

E lá estava eu, no meio da minha brisa - quando os meus irmãos já estavam dormindo e os meus pais ainda estavam na rua -, me sentindo ansioso e com o coração acelerando mais e mais as batidas. Enquanto o medo de que aquilo pudesse acontecer me pegava desprevenido e me fazia sair ligando para todo mundo, para descobrir o paradeiro dos meus pais.

Quando nasci, eu já havia perdido uma avó e na sequência, me despedi de muita gente nos meus primeiros anos de vida. Aos 18 anos eu já tinha dado tchau para vovô, vovó, vovô e ela sempre me aterrorizando, incansável e obstinada, como se quisesse que eu aprendesse que nada era pra sempre.

Naquela época, eu já deveria ser um phd no assunto, no entanto, continuei acreditando que nunca seria tarde demais para correr atrás de um sonho ou para pedir desculpa. Era sempre “live and let live”, por mais rebelde que eu fosse.

Lá estava eu acomodado de novo, querendo manter tudo o que eu tinha, ao invés de ousar buscar desbravar novos mares.

Eu acreditava que a minha cota de perdas já havia sido suficientemente alta para uma pessoa normal e que agora eu poderia me esquecer disso por um tempo e me manter próximo a tudo e a todos.

Meus amigos ainda tinham a família completa se reunindo no natal (alguns ainda esbanjavam com bisas e bisos) quando ela resolveu novamente dar as caras. Dessa vez ela escolheu aparecer lá em casa e levar meu tio, que morava com a gente, para um passeio em outro plano (?!).

Mas foi quando me despedi do meu pai que eu senti que alguma coisa dentro de mim havia quebrado. Como se rompesse um lacre. Eu agora queria tudo ao mesmo tempo agora.

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Eu e meu pai até tínhamos uma relação bastante amorosa e carinhosa, mas com a chegada da adolescência tivemos alguns rompantes que nos levavam a brigar e discutir quase como se fossemos irmãos. Óbvio que ele era o meu irmão mais velho, mais experiente, mais chato e de capricórnio.

Não ter mais ele por perto foi um choque enorme e não ajudou muito o fato de tudo ter acontecido enquanto eu estava “curtindo” em São Paulo e por isso, ter deixado meus irmãos mais novos sozinhos na hora do acontecido. Eu sei que não iria mudar nada, mas eu sempre achei que eu deveria ter segurado essa bronca sozinho.

Eu também tenho certeza de que não devo desculpas nenhuma ao meu pai, ele inclusive estava muito feliz por mim na época, mas durante muito tempo me cobrei por não ter sido mais afetuoso em algumas ocasiões. Acho que até hoje, quase 10 anos depois, ainda estou tentando me equilibrar direito dessa perda.

Agora, comecei a passar por um processo estranho e de certa forma diferente. Pessoas da minha idade estão indo embora de uma hora para outra. E isso me lembra, mais uma vez, de quão frágil é essa condição de estar vivo.

Depressão, pressão alta e afins sempre pareceram doenças de “adulto”... E nós viramos adultos.

Outras estão se despedindo de entes queridos e, por incrível que pareça, nessas horas acredito ser útil para alguma coisa. Não que eu procure alguém para prestar alguma condolência pré-decorada ou contar minhas histórias sobre despedidas, muito menos forçar alguém a acreditar em alguma religião. Longe de mim. Sempre peço para buscarem força para encarar o luto. 

Na verdade eu apenas gostaria que não só meus amigos, mas eu mesmo lembrasse que ela sempre estará por aqui esperando a hora certa. E por mais que façamos de tudo para evitar esse confronto, precisamos lembrar sempre de não deixar nada para amanhã.

Mude hoje, acerte hoje, peça desculpas, aceite desculpas e faça tudo o que tiver que ser feito, na medida do possível, para quando ela cruzar o seu caminho você não ficar com aquela sensação de que faltou alguma coisa ecoando tão forte dentro de você. É bem clichê, mas é a mais pura verdade.

Infelizmente, é impossível se manter sempre presente e em dia com todos. E quando a hora chegar nunca estaremos preparados e sempre vamos sentir que faltou alguma coisa ou alguma palavra.

“Stand up strong feel the pain
When the angels sing
Love and death don´t mean a thing
Till the angels sing
Little by little, day by day
I watch the children play
´Cause life and death don´t mean a thing
Till the angels sing”

Matheus Krempel

Matheus Krempel

Matheus Krempel toca desde 1995 no The Bombers e também canta no Reverendo Frankenstein. Já escreveu para o fanzine Rebel Magazine e colaborou com matérias para diversos sites como Zona Punk e Blog n´ Roll A tribuna. Há 10 anos atua no mercado da moda de luxo, na área administrativa, inclusive já tendo ministrado palestra na Faculdade Unisanta.

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