11/12/2012 01:19 - Atualizado em 22/03/2013 22:29

Fazendo Rock no expert com Kiara Rocks

O vocalista Cadu Pelegrini em uma entrevista sem papas na língua

Crysthian Gonçalves
Guitar Talks
Kiara Rocks - Foto divulgação

O AC/DC já diria em uma de suas músicas: “It’s a long way to the top if you wanna rock’n roll”. E realmente, para algumas bandas o caminho até o topo é longo e sofrido. Mas às vezes é necessário um pouco de sorte e dar a cara à tapa, como fez uma das revelações do rock nacional.

Com o dedo no gatilho, Cadu Pelegrini, vocalista e guitarrista da Kiara Rocks, reconhecidos internacionalmente por grandes astros da música, bateu um papo com o Guitar Talks e falou sobre a evolução da banda na cena, influências, o novo álbum, e o apadrinhamento de um nome de peso como Matt Sorum.

A Kiara Rocks, que lançou recentemente o seu segundo álbum, “Todos os Meus Passos”, vem lutando por seu espaço. Cadu Pelegrini, sem papas na língua, falou sobre a banda em uma conversa aberta e descontraída. Eles apostam em algo que não é novidade: o rock and roll - mas o reinventam apostando em um hardrock moderno, regado à suas influências pessoais. Eles estão jogando o jogo, e não vão desistir até chegar ao topo.

Guitar Talks - Eu me lembro de quando vi a Kiara Rocks pela primeira vez no programa Astros, do SBT, e a partir dali fui atrás do som de vocês. O que as participações feitas no programa trouxeram de positivo para a banda? 

Cadu Pelegrini - Por estar numa TV aberta, em um programa no horário nobre, quando aparece uma coisa diferente, o pessoal já gosta. Mas sempre tem muita banda legal por aí, só que não tem a oportunidade de mostrar o trabalho assim como tivemos. Não acho que estávamos fazendo uma proposta totalmente diferente, mas acho que a gente só teve uma oportunidade legal de mostrar nosso trabalho. Claro que um programa que passa no Brasil inteiro, em que você está competindo com outros estilos (o que eu talvez não concorde, deveria ser só bandas de rock, ou não), concorrer e tocar às oito horas da noite num canal aberto. Conseguir chegar até o final foi bom. Qualquer banda que está aqui e canta em português não iria recusar, né? A não ser se for uma banda punk, anti tudo, que não queira ficar famoso, sei lá. (risos) A gente aproveitou. Temos que agradecer isso aí. O foda é que a gente fica super-rotulado. “Ah, o pessoal que foi finalista do ‘Astros’, e tal”. Isso já faz uns três anos! São coisas que não estamos tentando apagar, mas há outras coisas bem mais legais que estão acontecendo agora.                                                                                                                                  

GT - O que vocês mudaram daquela época pra cá? No sentido de som, formação.

A formação sempre teve uma mudança ou outra, mas a gente nunca tirou ninguém. Na época que eu quis me empenhar no vocal, coloquei um guitarrista de apoio, só que acabou não rolando e eu voltei para a guitarra. Numa época colocamos percussão para tentar uma parada meio Stones, meio ‘Apettite For Destruction’ (álbum do Guns N" Roses) que também acabou não funcionando.

GT - Você disse que começou a se empenhar no vocal. É verdade que você aprendeu sozinho?

É verdade. Eu ficava estudando os CDs do Aerosmith, do AC/DC com o Bom Scott e um pouco do Ozzy também. Gostava do estilo, não é questão de ter técnica. Isso é deles, eu adquiri a minha técnica e sei até onde vou, ou não, vendo esses caras cantarem.

GT - Uma coisa interessante é que vocês fazem um verdadeiro rock and roll com letras em português. Na sonoridade da banda ficam claras as influências gringas.

Totalmente.

Matt Sorrun, Kacu Pelegrini e Tracy Guns - Foto Anna Quast

GT - Mas tem alguma influência nacional na Kiara Rocks?

Não.

GT - Nada?

Putz, cara... Sinceramente, nada mesmo. A gente cresceu ouvindo essas coisas e é o que reflete no som. Seria muita hipocrisia nossa falar que agora a banda tem influência nacional, só para conseguir público no Brasil. Eu respeito os músicos daqui, acho muito bons, mas na minha formação musical não teve nenhuma influência.

GT - Você acha que o rock nacional não é bom?

Não é isso. É questão de não se identificar mesmo. Nem com letras nem com as músicas. Não sei, sabe, por às vezes eu achar que aquela banda (nacional) está fazendo exatamente igual àquela outra banda (internacional). Eu prefiro ouvir o original a uma cópia nacional. Eu não gosto de cópias, eu gosto de algo que mude a influência para alguma coisa. Não que eu esteja falando que todos sejam assim, pelo contrario.  Mas não adianta eu falar “nossa eu amo MPB, nossa o Tom Jobin...” (risos) Não me desperta nada. Eu prefiro ouvir qualquer música do AC/DC do que ouvir tudo da Elis Regina. Ela é muito boa, mas em mim não desperta nada.

GT - Internacional: suas influencias são claras. Fale algumas.

Guns N" Roses, Aerosmith, The Cult. Tenho uma influencia de R.E.M., gosto bastante. Rolling Stones e Foo Fighters agora.

GT - Ter uma banda independente hoje é difícil. Ainda mais apostando em um estilo mais seleto, como o que vocês tocam e que não chega a ser comercial. 

A maioria das bandas começa já pensando em fazer sucesso e estar no mercado. A nossa diferença é que nunca pensamos nisso. Sempre quisemos fazer o pessoal escutar nosso som e atingir o público. O problema é quando o cara monta o negócio já pensando nisso, sabe? É difícil pra caramba, sim. Parte para o inglês que é mais fácil então! Mas é foda, a molecada hoje em dia não sabe interpretar uma música. A galera acha que música em português tem que ser mais literal, ou o mais direto o possível. Eu não, eu odeio isso. Aí a pessoa acaba desistindo, ou acha que em português acaba ficando algo meio brega. Acaba acontecendo que o próprio cara da banda fica com vergonha de cantar sua letra. É o mais difícil que tem. Eu comparo com quando a gente vai jogar algum jogo mais difícil. Fazer rock no Brasil é quase que jogar um Guitar Hero no Expert.

GT - Quais são as maiores dificuldade que vocês já tiveram que passar ou ainda passam com a banda?

Bom, a gente sabe que no Brasil se montou uma cena forte de dono de bar, de pub, que só paga e dá atenção para banda cover. Acabam pegando um monte de banda por ai e às vezes não é coisa do dono do bar, é da galera, que lota um lugar onde estão fazendo cover de Guns e deixa de lado as bandas que estão trampando, fazendo algo diferente. E nem ouvem o som. Essa é a maior dificuldade hoje para criar som próprio. Os caras não apostam e fica difícil pra caramba porque não tem apoio nenhum. Você pega uma banda que é consagrada e que tem um ‘puta’ de um nome que qualquer moleque conhece – deixando claro que não estou falando mal de ninguém, eu sou amigo de um monte de banda cover, eu já tive banda assim, inclusive. – você pega sei lá, o Metallica: o mundo todo conhece o Metallica. Você coloca o nome da banda no show e todo mundo vai querer ver. Agora você pega uma banda que está começando agora, com o próprio nome, sei lá, Kiara Rocks é o nosso próprio nome. Vai ir menos gente, mas vão pessoas interessadas no nosso próprio som. Mas para o dono do bar isso não importa.

GT - Vocês só tem 4 anos de estrada e já estão com dois álbuns. Quando foi que você decidiu que era isso que queria para si mesmo e notou que a banda começou a dar certo? 

Temos um quesito que parece que não, mas é: sorte. Ser chamado para programas na TV ajudou muito a divulgar. Mas eu acho que isso vale muito da banda, de correr atrás. Mas tem grupos que dão sorte e todo mundo acaba conhecendo. Eu não sei, é questão de tempo para te responder, mas você deve saber porque tem banda também. A gente se sujeita a ir tocar em qualquer buraco e levar cambau.

GT - E quando vocês viram que as coisas estavam dando certo para a banda?

A galera começou a nos conhecer no Brasil inteiro, desde Manaus a Curitiba. Precisamos nos profissionalizar um pouco mais rápido e falamos: “Bom, mesmo estando meio só, a gente precisa fazer, né?”. Já estávamos a algum um tempo juntos, mas tocando em bares. Quando aconteceu, foi preciso fazer os nossos próprios shows e tivemos que ir na raça. Quando a gente lançou o primeiro CD (Últimos Dias, 2010), tivemos uma resposta muito boa. O retorno foi bem positivo. Não fomos chamados de emo, nem nada (risos). Talvez por alguém que tenha escutado pouca coisa e falado isso, mas nossa base não é hardcore, é hardrock, e nossas letras não são todas melosas. Então tivemos uma resposta boa e conseguimos chamar uma atenção legal para as músicas. Quando vimos que nosso clipe independente, ali, gravado com mil reais, chegou a quase meio milhão de visitas, falamos: “Ta na hora de entrar dentro e pegar pesado no negócio”. Foi quando vimos que iríamos seguir aquele caminho.

GT - Foi uma aposta que deu certa. O hardrock e as letras melódicas. Se fosse uma base hardcore, os caras iriam te chamar de emo, certeza!

É, você sabe, né? A maioria das bandas aqui tocam essas bases de hardcore. E teve uma fase no qual tudo que aparecia chamavam de emo, até bandas mais antigas. Nossa! Você ta ligado, nessa fase tudo era emo! E a gente veio dessa época. Nego achando que tudo era emo. Conseguimos ao menos manter um respeito porque não tem só menininha que ouve nosso som, tem também os caras que gostam das músicas, das guitarras, e é diferente, né? Por que a TV só empurra essas coisas, a rádio também. Quando chega algo diferente a galera dá uma atenção maior e fica mais fiel.

Kadu e Matt Sorrum- Foto Anna Quast

GT - Como é que rolou a parceria com o Matt Sorrum e Traci Guns?

Eu tenho uma amizade com o Traci Guns, desde quando eles vieram ao Brasil com o L.A. Guns pela primeira vez. Eu abri o show deles com outra banda que eu tinha (paralela ao Kiara) e rolou um esquema de parceria. Meio que cuidei dele por aqui, fizemos dois shows de abertura em Campinas. Por causa disso ele ficou muito amigo meu, foi gostando do som. Buscou na internet, depois, quando foi embora, viramos amigos. Ele tinha uma banda com o Matt Sorrum na época, que era só de cover, e estávamos com a ideia de trazer alguma influência de fora, ou irmos para fora do país gravar. Daí ele teve a ideia de ao invés de irmos para lá, em trazer o cara. Então eu pedi para ele fazer contato com o Matt, e ele ouviu o nosso trabalho e gostou do som. Eles vieram para cá, gravaram as músicas e quando ele estava indo embora falou: - “Olha, gostei do som, eu queria assinar o trabalho e se vocês deixarem eu posso até fazer a produção do CD inteiro.” Negociamos e ele voltou depois de um mês para finalizar o CD como produtor. Ele também virou bastante amigo nosso. Sempre quando tem viagem por aqui ele nos chama. Já fomos para Buenos Aires com ele. Acabou virando uma parceria que o Matt assina e mostra para todos. Tanto que quando fomos para a Argentina todo mundo já conhecia o nome da banda, fui cumprimentado até por Gene Simons do Kiss. Temos esse fator meio sorte, e ao mesmo tempo em que mostramos nosso som. Foi o cara que quis participar e assinar. Não é o produtor que você contrata e ele vai lá, faz e some. Ele ouve, vê com quem quer trabalhar e assina.

GT – Percebemos, pelos depoimentos que ele dá sobre vocês, certo orgulho até. Para alguém que era apenas fã como é isso?

Porra... Eu sempre falo que vejo o cara nos shows do Velvet, do Guns, lá de longe, e quando eu olho para trás o cara está tocando com a gente. E um nome desses assinar, - ah, não estou falando por ego sabe, mas eu quero ver esses moleques que ficam na internet falar que a banda é zoada quando se tem o Matt Sorrum falando pra você: “Cara, parabéns”, ligando pro Joe Perry (Aerosmith) na sua frente e falando que sua banda é legal (risos) Entendeu? Você fica feliz! Você fala: “Pô, to fazendo alguma coisa diferente!”.

GT - E ele gravou algumas músicas nesse disco?

Ele gravou 7 faixas.

GT - E o que a gente pode esperar desse álbum?

Tratamos todas as canções como se fossem músicas de trabalho.  É claro que nem pensamos em nada de rádio, até porque as músicas tem um tempo até maior do que esses veículos permitem. Se for tocar na rádio vai ter que fazer um “radio edit”, uma versão. A gente tratou todas iguais, o Matt mesmo ouviu as músicas e falou: “Olha eu quero tocar nessas”. O Traci gostou muito e o Sebastian Bach que fez a “Careless Whisper” conosco também. Às vezes as participações ficam maiores como se fosse algo pra vender, mas em relação às músicas, acho que o mais importante são elas em si. Por que não vamos poder contar sempre com eles, nós mesmos que vamos executá-las. E assim, eu acho que tem de tudo no álbum, mas, principalmente, está rock n roll pra caramba. E uma atrás  da outra. Não estamos falando de um CD ultra pesado nem nada, mas tem atitude lá. É isso o que importa. E uma gravação muito legal. Foi gravado aqui, mixado em Los Angeles. E masterizado pelos mesmos que trabalharam com o Queens of the Stone Age e mais um monte de cara bom.

GT - Eles participaram do clipe também?

Sim, foi uma loucura. Ele teve uma ideia, todos toparam e foi gravado.

GT - Você tem alguma historia com o Matt?

Eu ia buscar o Matt no hotel todo dia. Levava para o estúdio, pegava trânsito e ele aproveitava para me contar histórias do Guns N" Roses na época que ele integrava a banda.  Coisas que vocês nem imaginam. Teve até uma historia que aquele solo de bateria no Rock in Rio, que foi o primeiro show dele com o Guns. O Axl chegou nele e falou – “Nesses 10 minutos aqui você vai fazer um solo de bateria.” Ai ele começou a pensar em algo aqui, ali, e do nada, como o pessoal colocou ele na fogueira, ele criou um solo de última hora. Contou um monte de causos, como as vezes que quase foi preso em um monte de lugar. Era foda ouvir essas historias do próprio cara!

GT - Vocês já passaram por algo insano assim também?

Nossa mano, cada final de semana nosso dá um livro! (empolgação). É sério! A gente estava até pensando em anotar essas coisas porque você não tem noção do que a gente passa! Desde nego dando cambau em você em Brasília, e nós sem conseguirmos voltar de avião, porque o cara sumiu do festival. Roubaram nosso cachê dentro da mochila no camarim e não tínhamos dinheiro pra voltar (risos). É, velho... De tudo acontece. Vou até começar a anotar num caderno essas coisas porque quando pegam de surpresa assim parece que não tem história, mas todo final de semana tem alguma idiotice (risos).

GT - Ultima questão, o Matt tinha falado sobre um projeto de um novo clipe. Pode adiantar algo pra gente?

Vai ser gravado em novembro. Mas não vai ser feito aqui. Estamos pensando no roteiro já, mas não vai ser gravado no Brasil. Se tudo der certo vai ser lançado já em dezembro. É um gás já, porque estamos em negociação. Agora vai ter o lançamento do CD pra imprensa e audição. Vai ter o show de lançamento dia 30 no Inferno (em São Paulo), onde vamos tocar o CD na íntegra, com nossas versões, convidados e mais algumas surpresas. Logo mais começamos a divulgar aos poucos essas coisas, mas já ta tudo no gatilho.

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