21/02/2017 14:19 - Atualizado em 27/03/2017 11:24

A volta da poesia popular do Cogumelo Plutão

Banda prepara o lançamento de um DVD acústico e conversa com o Guitar Talks sobre o sucesso do início dos anos 2000 e o retorno após um hiato forçado

Marcos Ferreira
Guitar Talks
Cogumelo Plutão volta à ativa com DVD acústivo - Foto: Antares Martins

Por Marcos Ferreira

Quando o novo milênio apontou, o Brasil, sempre eclético, era dono de uma parada de sucessos das mais variadas. No ano 2000 as pessoas logo começaram a cantarolar versos como “Você é a escada da minha subida / Você o calor da minha vida”.

A música dos brasilienses do Cogumelo Plutão foi um arrasa quarteirão e ganhou diversas releituras ao longo do tempo, incluindo a da dupla César Menotti & Fabiano, com o então novíssimo estilo sertanejo universitário.

“Esperando na Janela” foi um hit inquestionável, alcançando o primeiro lugar das rádios em uma época qual a internet era bem diferente da que conhecemos hoje. A faixa ainda foi destaque na trilha da novela “Laços de Família”, uma das maiores audiências da TV nas últimas duas décadas, com seus mais de 60 pontos no Ibope (todos devem se lembrar de Carolina Dieckmann tendo os cabelos raspados diante da câmera ao som de Lara Fabian).

A banda alçou voos que poucas outras que vieram na sequência viveram. O álbum “Biblioteca dos Sonhos” bateu 2 milhões de cópias vendidas e deve estar povoando disqueteiras por aí até hoje. Inimaginável para a atualidade.

O pop rock vivia um momento especial. “Anna Júlia”, do Los Hermanos (1999), ainda estava no gosto das multidões. Pouco depois, em 2001, “Carla” seria a música amada por programas de rádio e TV, mas Raimundos, Skank e tantas mais também viviam ótimas fases.

Não demorou muito para sentirmos falta da voz grave de Blanch Van Gogh e do som explosivo do Cogumelo Plutão. Um problema de saúde freou os planos do grupo. “No auge do sucesso, após quase três anos fazendo vinte e duas datas por mês de shows, tive um aneurisma no meio de uma turnê. Imediatamente parei com tudo!”, conta o vocalista.

Outras faixas ainda seguiram ótimos caminhos, mesmo sem a banda estar atuante. “Uma Vez Mais", presente na novela "Alma Gêmea" (2005) e "Beijar na Boca", que fez muito sucesso com a cantora Claudia Leitte, são bons exemplos.

Blanch Van Gogh - Foto: divulgação

O músico foi buscar tratamento nos Estados Unidos. Foram dois anos e meio de hospital, oito meses em cadeira de rodas que levaram uma fase importante da sua carreira musical, mas não saciou sua criatividade. Recuperado, Blanch voltou ao Brasil, se dedicou à literatura e composição. Em 2016 retomou os trabalhos com a banda.

17 anos depois do ápice, o Cogumelo Plutão subiu ao palco do Teatro UMC, em São Paulo, para a gravação de um DVD acústico. O show trouxe sucessos e mais 12 canções inéditas. Com Blanch, estão Max (baixo), Phozzy (bateria), Leandro Salgado (guitarra), Thiago (teclado) e Marcelo (guitarra), sob a batuta do produtor Edu Ávila.

Nas vésperas das apresentações, registradas em 7 e 8 de fevereiro, o Guitar Talks conversou com Blanch Van Gogh sobre detalhes da história que contamos acima, o atual momento da banda e sua vida como compositor.

Guitar Talks - O Cogumelo Plutão povoa o imaginário das pessoas por uma canção que marcou gerações. A banda pensava que “Esperando na Janela” fosse ser um hit lembrado até hoje?

Blanch Van Gogh - Não! Quando a compus foi com intenção de fazer uma canção para Deus. Jamais imaginaria que tomasse o rumo que tomou. Hoje em dia várias igrejas executam essa canção, assim como diversas crianças cantam de peito aberto nos colégios. Professores ensinam crianças a ler usando a nossa canção. Acho que atingimos sem querer o inconsciente popular. O legal disso tudo é que pessoas se sentem bem cantando essa canção. Nunca me canso de cantá-la! Ela desperta em mim todo amor do mundo por tudo o que me rodeia. Agradeço todos os dias o dia em que, inspirado, a fiz.

GT - Blanch, você é um compositor que cantores populares como Claudia Leitte, Luan Santana entre outros abraçaram. O que você liga de especial em suas composições que atraem tanto o meio pop?

Talvez porque pessoas se identifiquem com as histórias. Todas as minhas músicas na verdade são histórias que acontecem comigo. Sobre coisas as quais eu vivenciei. Por isso tantos e tantos fãs ficam esperando alguma canção inédita para saber sobre “O que o Blanch está pensando nesse momento”. As histórias explicando do porque surgiu essa ou aquela canção por vezes é tão legal quanto as músicas. Mas a melhor coisa disso tudo é ouvir dos fãs que alguma canção minha mudou suas vidas!

GT - Li que por conta disso você é um grande arrecadar de direitos autorais no Brasil. Antes de tudo, você concorda com essa afirmação? Você acredita que o compositor é uma figura valorizada no mercado musical?

É uma questão sazonal! Tem época que as minhas músicas faturam mais, tem época que é menos... Depende do momento. Atualmente não sei qual colocação pertenço devido a eu estar ocupado demais ensaiando pro DVD do Cogumelo Plutão. Sim, eu sou um compositor muito valorizado no mercado editorial. Não tenho do que reclamar. Todos os anos diversos artistas regravam minhas canções, assim como muitos pedem sempre algumas inéditas. Sempre estou colaborando com diversos artistas, componho com diversos parceiros, por vezes. Mas dentre eles posso citar a maior compositora do momento, a Vane K!

DVD acústico da banda foi gravado nos dias 7 e 8 de fevereiro - Foto: divulgação

GT - O Cogumelo Plutão tem uma discografia relativamente curta, mesmo com a ótima vendagem do disco de estreia. Um problema de saúde seu atravessou o caminho do grupo e contribuiu para essa pausa. Poderia falar um pouco sobre o que aconteceu?

No auge do sucesso, após quase três anos fazendo vinte e duas datas por mês de shows, tive um aneurisma no meio de uma turnê. Imediatamente parei com tudo! Tivemos que frear a máquina. Eu morei dois anos fora do país para me recuperar da cirurgia nos EUA e quando eu voltei, após passar por todo tipo de traumas psicológicos, resolvi viver uma vida diferente de tudo o que vivia. Fui morar numa fazenda em Santa Catarina. Ter o contato com as coisas simples da vida como colocar os pés no barro, plantar, ver aquele fruto do seu suor crescer. Fui ter contato com os camponeses e ser uma pessoa ali, no meio deles.

Vi ali uma realidade muito diferente do que vemos nos grandes centros urbanos. De repente ficar deitado numa grama, à noite, olhando as estrelas era o “verdadeiro espetáculo”. Respirar o ar puro que nos é tão importante e não damos valor... Durante esse tempo gerei uma filha e fui ter uma experiência de mudança em busca de reconstruir algo que tinha se perdido dentro de mim: a convivência familiar. Ensinar minha filhinha sobre arte e música, cantar numa igrejinha bem simplória ao lado de minha família de repente passou a ser mais importante do que flashes, notícias e assédios de todos os níveis. Na verdade nossa banda não parou por causa de brigas e, sim, demos um hiato por causa de amor. 

GT - No DVD acústico que vocês gravam agora em fevereiro terá 12 músicas inéditas. Esse período de hiato contribuiu positivamente ou negativamente para a criatividade como compositor?

Sempre fui um compositor profícuo. Durante algum tempo não quis pegar num violão devido a estar dedicado à outra paixão, escrever livros. Nunca tive problemas de criatividade, pelo contrário. Se me encontro motivado, escrevo bastante! E as minhas melhores canções são feitas embaixo de uma árvore, ouvindo os passarinhos cantando do meu lado. 

GT - Nos fale um pouco da atual formação do Cogumelo Plutão.

Somos amigos acima de qualquer coisa! Sempre estamos conversando sobre tudo. Temos diversas coisas em comum que nos move em direção a ajudar pessoas, como a causa humanitária, por exemplo. Queremos desenvolver esse nosso lado com mais força daqui por diante. No fundo, somos músicos que desejam usar seus dons para construir coisas boas para outras pessoas. Cada um tem opiniões diferentes sobre diversos temas, porém somos a prova viva de que pessoas podem conviver de modo intelectual e civilizado, unindo suas diferenças em torno de uma causa importante. Damos apoio uns para os outros e temos a sorte de ser uma grande família sonora que pensa junta e motiva todos ao redor a crescer. Eu não poderia ter ninguém melhor do que eles ao meu lado.

Blanch Van Gogh - Foto: divulgação

GT - Em tempos que muitos grandes artistas seguem o caminho da música independente, qual a importância de ser acompanhado por um selo como a Studio Classic?

Tivemos que rever nossos conceitos sobre estar ou não dentro de uma companhia fonográfica multinacional, desde que o selo Studio Classic chegou ao mercado de forma avassaladora! Uma empresa que trabalha com força de investimentos em divulgação e produção fonográfica! Uma mentalidade de gravadora independente nos moldes dos grandes selos britânicos historicamente conhecidos, com a diferença que Edu Àvila além de um grande engenheiro de som, é um músico extraordinário que sabe como motivar e arrancar dentro de um artista, o seu melhor. Ele entrou pra mudar tudo! Temos ao nosso lado o nosso Phil Spector, o nosso Martin Hamnet! A Studio Classic trabalha com excelência pop, seguindo com maestria, ensinando para todas as multinacionais, como se trabalha de verdade. Não teve como não assinarmos com eles. Temos tudo o que precisamos e desde o início, nossa relação veio com leveza e admiração mútua. Enfim, estamos felizes!

GT - A nova geração que não ouviu o Cogumelo Plutão em seu ápice deve se identificar com o novo trabalho ou podemos esperar um som para quem apreciava o rock dos anos 90?

Obviamente evoluímos como musicistas, não há dúvida! Não mudou a minha forma de compor e sim a forma de produzir e arranjar minhas canções. A mensagem do Blanch continua a mesma só que mais madura! O formato que resolvemos voltar para esse projeto foi a do “Acústico”. Basicamente somos uma banda de folk music que flerta com o rock. A diferença é que eu sou fã da escola italiana de produção orquestral e também somos aficionados pela obra do cantor/ator Richard Harris, o que nos faz ser percebidos como algo orquestral. Então esperem um projeto com muito requinte orquestral, apesar de ser percebido como cultura pop. Preferimos mostrar a beleza de se ter um quarteto de cordas ao nosso lado, um time de coral de alto nível técnico e algum sentido poético. Preferimos mostrar densidade sonora de forma emocional.

GT - Edu Ávila assina a produção do novo DVD acústico. Como está sendo essa preparação em conjunto?

Sensacional! Estamos nas nuvens literalmente com ele! Não poderíamos ter ninguém melhor do que o próprio! Ele é uma árvore que nos dá frutos, nos abriga e nos alimenta de arte. Nos motiva e sabe retirar da gente o que de melhor temos que dar para o mundo. Ele elevou nossa obra a um nível singular. Mudou a minha cultura e de toda a banda. Com ele me sinto mais leve, sem contar que ganhei um grande amigo, um grande irmão que me motiva a ser melhor.

Gravação do clipe ``Cada Instante Sem Você´´ - Foto: divulgação

GT - Pelo que estou acompanhando, esse acústico não será um tradicional banquinho e violão. Que elementos vocês buscaram para esse registro?

O Mérito diferenciado de oferecer um excelente espetáculo de luzes, aliado a uma produção musical singular. O mérito desse pensamento é todo da equipe da Studio Classic. Sabíamos desde o início que iríamos fazer com excelência todo o trabalho a ponto que chamaria atenção do mercado pelo alto nível do projeto musical. Humildemente não queremos ser melhores do que ninguém. Só viemos para falar de beleza, poesia, oferecendo a nossa música como um bom vinho antigo cujo sabor pode despertar amor à primeira vista. 

GT - Para fechar, gostariam de deixar um recado aos seus fãs e seguidores do Guitar Talks?

Acreditem sempre em vocês. Durante a vida existirão sempre pessoas lhes dizendo para desistir de seus sonhos. Nunca desistam! Lutem por eles! A vida pode estar em processo de dificuldade, porém confie dentro de você que tudo é sazonal e segue um processo que irá lhe ajudar a se reconstruir. Não é que a vida é difícil, é que você veio a esse mundo pra jogar o jogo no modo hard! Pois você não é qualquer um. Você pode! Você vai conseguir! É somente uma questão de reposicionar sua mente frente ao problema.

Depois de tudo o que aconteceu comigo, terminarei essa entrevista com uma frase de uma canção minha: “Acima das nuvens cinzentas e sombrias, sempre existirá um sol bonito a lhe sorrir”!

Confira o clipe do single "Cada Instante Sem Você":

E a já clássica "Esperando na Janela":

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