26/12/2012 16:39 - Atualizado em 25/01/2013 15:56

Rodrigo Lima em um papo sobre os 20 anos do grupo, visão política e o próximo CD do Dead Fish

Para o vocalista, a cena hardcore atual está dividida

Crysthian Gonçalves
Guitar Talks
Dead Fish - Foto: Luringa

Colaboração: Marcos Ferreira

O Dead Fish ainda mantém o mesmo peso de 20 anos atrás. Os capixabas são conhecidos pela sonoridade forte, composições politizadas e pelo posicionamento de não tocarem em eventos onde as bandas de abertura tenham que vender ingressos para tocar.

O vocalista Rodrigo Lima conversou com o Guitar Talks sobre os maus bocados que já passaram durante todos esses anos na estrada, posicionamento político e a formação atual da banda que pretende presentear os fãs em 2013 com um novo álbum.

O vocalista Rodrigo Lima - Foto divulgação

Guitar Talks - Como que é para vocês estarem na estrada há 20 anos, vindo da cena underground e vivendo de música hoje?

Rodrigo – Eu ainda me sinto parte de um todo que é o cenário independente. Nunca me senti saindo deste meio.  Eu acredito que nós conseguimos surfar uma onda que acho que muitas pessoas não conseguiram. No meio da música não existia muito um caminho do meio. Ou se era muito “underground” ou muito “mainstream”, e chegamos num nível que não ficamos nem muito lá nem muito cá. Por muito tempo nos sentimos meio sem rumo porque não existiam muitas bandas neste patamar, acho que hoje as coisas podem mudar mesmo que andando muito devagar no Brasil. 

Quanto a estar aqui depois de vinte um anos, eu acredito que foram dois fatores. O primeiro é que ainda gostamos do que fazemos e o segundo foi uma sorte no passado, quando em 2003 a banda estava prestes acabar e recebemos a proposta da Deck (gravadora). 

GT - Quais foram os maus bocados que vocês já passaram durante esses anos de estrada? Você deve ter algumas boas histórias pra nos contar.

Todo mês temos uma nova. Eu digo que temos que fazer dois livros sobre a banda: o branco e o negro. O negro seria o com as partes ruins que seria bem grosso com mais de mil páginas. 

Já passamos de tudo nestas duas décadas. Desde ser retirado de dentro de um avião em Vitória por causa da nossa bagagem, passando por carreta de van quebrando no meio da estrada, contratante desonesto, enquadro da polícia de fuzil na mão atrás da Rodoviária do Rio, enquadro da Polícia em todas as fronteiras de Estado que conheço e mais entrevistas em televisões e rádios hilárias, com a gente se passando por outra banda. Definitivamente daria um livro à parte das roubadas. 

A última foi numa em Maceió que a apresentadora vendida no lance, sem saber o que perguntar lançou um “Quem de vocês é mais roqueiro?”.  Isso às oito da manhã de uma quinta-feira, vindo de um show na noite anterior. O humor estava pra lá de ruim. Depois da pergunta rolou um silêncio de dois segundos,  e eu falei: “O Marco (nosso baterista), porque ele é muito tatuado.” Mais dois segundos e um “ah... Tá”, e mais cinco segundos de silêncio.

Dead Fish durante apresentação - Foto: Maurício Santana

GT - Qual o posicionamento político e ideologias do Dead Fish?

Eu me sinto um homem canhoto. Sinto a esquerda desde antes de ter uma banda. Venho de uma família que falava de política todo dia.  Não voto mais porque não acredito neste meio para alguma mudança, mas fiz campanha pro Lula na primeira tentativa de eleição dele. Depois do FHC achei que o que ele (Lula) propunha já era muito mais pro centro do que pra esquerda.

Muita gente pode não concordar, mas não acredito que uma banda envolvida com o punk e o hardcore se posicione como uma banda de Direita. Tudo bem que as coisas se tornaram muito mais conservadoras e até mais na superfície com o passar desta última década, mas, ainda me sinto numa banda de discurso político progressista.

GT - O Dead Fish apresenta letras bastante politizadas desde o começo da carreira. O que os inspira nessas composições?

Foi o que disse acima, venho de uma família que falava de política no café da manhã. A gente discutia como se fala de qualquer coisa numa mesa, só que naquela época ainda era a ditadura, eu era muito pequeno e já sabia quem era o Tancredo Neves. Acho que para eu falar de política é como respirar, nunca me vi não falando disso. Foi natural quando fundei a banda que escrevesse sobre um assunto que era comum pra mim.

GT - Vocês não são de São Paulo, mas estão muito presentes na cena underground paulistana. Como é a cena no Espírito Santo em comparação com aqui?

O cenário no Espírito Santo existe, esta lá, tem um monte de gente produzindo e fazendo um monte de coisas que são super relevantes, só que eles lá não estão num “grande centro” e o que fazem reverbera menos do que aqui, o que é uma pena. Já disse antes, e volto a repetir que no meio dos anos 90 o Espírito Santo era o lugar com o cenário mais legal do país, só que capixaba é complicado não sabe se perceber como fazendo algo bom e relevante. Existe algo na nossa autoestima que nos impede e nós mesmos acabamos se auto-sabotando. Isso já é até alvo de estudos por lá. 

Sempre tocamos em São Paulo, sempre estivemos muito presentes, mesmo que sendo de fora, no cenário local. Temos amigos de quase duas décadas aqui, sempre me senti acolhido pelas pessoas e ao contrário do que dizem, sempre achei o paulista mais acolhedor e curioso, - claro que do jeito dele - do que a regra de frieza e distanciamento propagada por ai.  É óbvio que tenho críticas quanto a um monte de coisas, até porque já vivo aqui há nove anos, mas a grosso modo São Paulo foi a cidade que recebeu a minha banda e respeitou o meu trabalho do jeito que era. Eu só posso ser muito agradecido. Fora a quantidade de bandas que nos influenciaram e que são daqui.

Dead Fish ao vivo - Foto: Patrick Martins

GT - Por que essa mística ao gravar o DVD no dia 11/11/11? Como foi a gravação?

Foi só uma data chamativa, achei genial termos conseguido ela, várias lendas podem ser inventadas sobre a data, mas foi só uma data interessante no calendário. O Daniel Ferro que dirigiu o DVD fez um grande trabalho, inclusive de convencimento da banda de que seria mais natural “uma noite, uma tentativa”. Nos convenceu que ficaria mais natural e verdadeiro e ele acertou. Eu amo a espontaneidade do DVD, sem tirar uma vírgula ou qualquer cena esta tudo ali, a energia, o caos, os acertos e os erros. Tudo que faz parte de um show do Dead Fish em qualquer lugar. Eu gosto muito deste trabalho, tanto que vejo até hoje e é raro alguém numa banda assistir / ouvir seu próprio trabalho. 

GT - Vocês já chegaram a anunciar que em 2012 iriam lançar um novo álbum, que inclusive contaria com inéditas que não foram inclusas no DVD de 20 anos, gravado no Circo Voador no dia 11/11/11. Como anda esse álbum?

Achamos que incluir duas inéditas no show não seria legal porque ainda temos ajustes pra fazer nelas. 

Pois é, deu tudo meio errado este ano para lançarmos um álbum novo, e a divulgação do DVD ajudou um pouco nisso, então acabamos ficando mais na estrada do que em estúdio. Em 2013 acredito muito que um álbum novo virá. Particularmente gostaria que tivesse saído ainda este ano, mas não rolou. 

GT - Esse novo álbum será o primeiro com a formação atual. Quais são as diferenças dessa formação e o que podemos esperar das novas músicas?

Acredite, ainda estamos discutindo isso internamente. 

Eu gostaria de um álbum muito rápido porque eu acho que ainda conseguimos aumentar a velocidade e manter a melodia. O resto da banda não concorda tanto comigo e acha que podemos inovar pra algum outro lado, como fazer algo mais trabalhado e pesado. Mas, o que vier está ótimo. Gosto muito do Marcão como baterista e sei que ele vai corresponder a tudo que quisermos, é só ir lá e fazer.

GT - Vocês mantém um posicionamento em que não tocam em eventos que bandas menores tenham que vender ingressos para tocar. Por que decidiram adotar essa conduta?

Não acho justo que um produtor ganhe em cima de bandas iniciantes. Não é nem honesto nem inteligente. Minha banda nunca tocou ou pagou para tocar em eventos na vida, sempre fomos convidados e muitas vezes tínhamos menos recursos que a banda principal, sim, definitivamente, mas nunca nos dispusemos a trabalhar para que o produtor do evento ganhasse financeiramente e sim pela música, pela banda e para que todos ganhem no fim das contas. Não estou falando de grana aqui, toquei sem receber grana por mais de dez anos, eu falo de ganharem em troca de ideias em fortalecimento e integração. Isso faz muita diferença lá na frente. 

As bandas também deveriam se ligar que se estão num show de música, eles são a parte principal, a música é a parte principal. 

Acredito que este procedimento tenha praticamente acabado com cenas inteiras América do Sul afora, e para recuperar isso só começando do zero de novo, o que é muito ruim. 

GT - Como você analisa a cena hardcore atual?

Tornou-se segmentada demais para ter força para as massas, mas está aí com um monte de banda boa fazendo total diferença. Não vejo um cenário de Hardcore fraco, eu o vejo dividido. 

GT - Tem conhecido bandas novas? Quais?

Conheci uma estes dias que se chama Run Like Lions, e achei muito boa. Bay Side Kings que não é minha onda, mas são caras competentes pra cassete. Gostei demais de ter ido ao show dos suecos do Atlas Losing Grip. Via alguns amigos conheci estes dias umas que já são até meio “hypadas” como os Black Keys e Red Fang que achei demais. Não vou muito mais atrás de bandas, prefiro ouvir dos meus amigos e que eles me digam o que vale a pena. 

GT - Quais são os planos para 2013?

Fazer o disco novo e talvez uma tour fora. 

GT - Rodrigo, muito obrigado pela entrevista. Gostaria de deixar um recado para os fãs do Dead Fish e leitores do Guitar Talks?

Muita sorte para todos, obrigado pela oportunidade de falar para a revista e até o ano que vem na tua cidade. 

Abraços!

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