03/10/2017 18:31 - Atualizado em 30/10/2017 01:12

A voz de Daíra ajuda a manter viva a obra de Belchior

Cantora conversou com o Guitar Talks sobre o projeto em tributo ao artista cearense, morto em abril deste ano

Marcos Ferreira
Guitar Talks
Daíra gravou 10 faixas do repertório de Belchior e excursiona com um show tributo - Foto: Carolina Muait

Era uma manhã de domingo, quase início da tarde, quando a notícia da partida de Belchior chegou até mim. Longe de onde eu me encontrava estarrecido, a jovem cantora Daíra recebia a notícia da morte de seu ídolo, quem reverenciava em um show e no projeto de um álbum de versões.

“Fui arrebatada por uma tristeza e confusão enormes”, “não iria conseguir mostrar este disco para o Belchior e nem dar um abraço físico de gratidão nele por essas músicas e vivências”, lembra a artista.

O triste ocorrido não fez a cantora mudar os planos. Ao lado de parceiros musicais, ela reviveu a obra de Bel, como o chama carinhosamente, de um jeito orgânico e autêntico. As 10 faixas do recém-lançado “Amar e Mudar as Coisas” hipnotizam os fãs do cantor cearense, natural de Sobral.

Essas e tantas outras canções ganharam ao longo de décadas a empatia de diversos interpretes como Elis Regina, Erasmo Carlos e Elba Ramalho – está última que destacou o trabalho de Daíra em uma entrevista ao jornalista Pedro Bial, ressaltando a qualidade da nova geração de músicos que receberam inspiração direta de Belchior.

A força das versões dessa carioca de Niterói, que começou muito cedo na música – ela já foi destaque no extinto programa “Gente Inocente” (Rede Globo), comandado por Márcio Garcia -, evidencia uma empatia sincera dela com o legado do eterno ‘rapaz latino-americano’.

Gravadas no estúdio Luperan, na região serrana do Rio, sem click e sem edição, as tracks ganharam arranjos simples e ao mesmo tempo sofisticados, focando na voz de Daíra e nas letras poéticas de Belchior.

41 anos depois do lançamento do clássico LP “Alucinação”, nós conversamos com a cantora sobre as inspirações para dar vida ao mestre Belchior, os próximos passos na carreira e a repercussão do trabalho que você pode ouvir logo ao fim da entrevista.

Daíra - Foto: Carolina Muait

Guitar Talks - O seu novo disco “Amar e Mudar as Coisas” é um tributo ao Belchior. Como nasceu sua relação com a obra do artista?

Daíra - Desde muito pequena, com pai compositor, já me interessava por música e MPB. Elis Regina cantando "Como nossos Pais" já era um hino. Depois teve meu pai, filho de cearense, cantando no karaokê "Apenas um Rapaz Latino-Americano"; na adolescência um amigo tocou "Hora do Almoço" no violão, guardei isso. Então tive grupo vocal cantando "A Palo Seco" e depois uma banda de rock psicodélico, com meus amigos de Niterói, cantando "Velha Roupa Colorida". No meu primeiro trabalho solo em vídeo "Flor pela Estrada" escolhi "Hora do Almoço" para interpretar. Reparei que sempre acabava escolhendo uma do Belchior, entre minhas pesquisas sobre a MPB. Nasceu assim, já cantando ele...

GT - O disco já estava em produção quando perdemos Belchior. Como você recebeu a notícia e isso mudou alguma coisa no projeto original?

Não mudou nada no projeto em si, do disco, nem do show, eles se mantiveram com a mesma cara e verdade. Porém eu fui arrebatada por uma tristeza e confusão enormes. Não sabia mais como o público iria receber esse meu projeto e totalmente frustrada porque não iria conseguir mostrar este disco para o Belchior e nem dar um abraço físico de gratidão nele por essas músicas e vivências - eu já estava fazendo este show, dentro e fora do Rio, há um ano exatamente, quando ele partiu. Foi muito triste e difícil de aceitar. Eu como fã, e com um disco nas mãos prestes a ser lançado. Mas tudo que se seguiu me deu forças e convicção para continuar. A família dele entrou em contato comigo. Parece que todos estão apoiando minha iniciativa e, antes disso, os fãs dele já vinham aos montes me falar como era importante, mais ainda agora, este meu trabalho. Foi um carinho muito grande que me ajudou a continuar.

GT - As músicas ganharam uma roupagem bem direta, limpa, com poucos instrumentos e guiada pela sua voz e pelas letras. Qual a ideia para optar por esses arranjos?

A ideia veio do produtor musical Rodrigo Garcia (Selo Porangareté), que tem, pessoalmente, muita influência do Bob Dylan em sua musicalidade. Ele trouxe para nosso universo, além do caipira brasileiro, o folk norte-americano. Ouvimos diversos discos, entre eles os de Bob Dylan, Joan Baez, Jonnie Mitxell, Luli e Lucina, música caipira em geral, e construímos essa sonoridade.

GT - Seu trabalho está sendo reconhecido pela originalidade em criar uma nova atmosfera de uma obra já conhecida do público. Você teme ficar rotulada ou presa a essa imagem de intérprete de um grande compositor?

Não. Acho que é um projeto - muito lindo que já marcou minha vida para sempre, pessoalmente falando - mas o público de alguma forma está sedento por coisas novas sempre e a gente tem mesmo é que se reciclar a cada trabalho. Então vou no meu caminho que acredito que assim vou bem.

Para Daíra, escolher 10 músicas não foi uma tarefa tão difícil assim - Foto: Carolina Muait

GT - Essa imersão na musicalidade do Belchior te inspira em criar outras coisas, ou você enxerga como uma grande homenagem?

Eu me conheci mais através das canções de Belchior. Tenho mais propriedade agora para falar de mim. Essas coisas são doidas mesmo, e aproveito cada passo da minha vida para aprender. Nela vi e ouvi muita coisa, estou sempre criando alguma coisa nova. O Belchior me inspirou muito e muitas outras coisas me inspiram muito, e está tudo presente neste trabalho, que homenageia a ele. Será que deu para entender? (risos). É tudo uma coisa só.

GT - Durante uma entrevista ao Pedro Bial, a cantora Elba Ramalho citou sua obra como uma referência ao que de melhor está sendo feito em memória a Belchior. Quais outros intérpretes de Belchior você destacaria (de todas as fases)?

Elis e o próprio Belchior são minhas paixões, não tem jeito. A Elba arrasou muito cantando as músicas do Belchior naquele programa do Bial, foi impressionante, ela "quebrou tudo" e fiquei muito feliz dela na mesma ocasião ter citado o meu nome! Quase morri do coração! (risis). Luli e Lucina cantando "Como nossos Pais", acho que foi nos anos 80 ou 90, é a coisa mais linda. Ouçam! É relíquia. Nem sei se tem disponível na internet. Acho que não. Ouvi com a própria Luli. Procurem saber!

GT - Como está sendo a repercussão deste trabalho para você?

Muito intensa e querida! Recebo pelo menos 10 mensagens por dia, vindas de todos os lados, em todas as minhas páginas: Facebook, Instagram, YouTube...  e muitas dizendo para eu ir com o show para São Paulo e, principalmente, Fortaleza, pro Brasil inteiro.

Foto: Carolina Muait

GT - Eu também sou um grande admirador de Belchior e acredito que tenha sido muito difícil fazer esse recorte de uma obra inteira para condicionar em um álbum. Qual foi o critério para selecionar as canções?

Acredita que não foi difícil? O que rolou foi o seguinte: fui pesquisando, tocando no violão (coisa inédita na minha vida) e cantando para testar na minha voz, o que eu gostei levei pro Rodrigo, ele achou massa e colocamos.

Eu sequer sabia quais eram as músicas de mais sucesso. Tirando as quais eu citei acima, eu não tinha a real medida disso, pois não vivi a época do Belchior nas rádios, TVs e nos shows. Fui no YouTube e mergulhei nas músicas aleatoriamente, as preferidas na minha voz entraram no disco. O que ficou de fora do disco e tem no show doeu muito (risos), mas sabíamos que tínhamos colocado nossa verdade ali. Sem estratégia.

Depois quando fui fazendo o show e tendo contato com a galera mais velha fã de Bel e vendo as entrevistas dele, vi que tinha escolhido quase todas as "lado A", e algumas "lado B"... coisa inédita para mim de novo! - eu que sempre escolhi sem querer o lado C de todos os compositores (risos).

GT - Sua voz é incrível. É doce e forte ao mesmo tempo. Em que momento da vida você reconheceu o seu dom para a música?

Eu tinha 6 anos quando gravei com meu pai pela primeira vez e gostei do que ouvi. Com 7 me apresentei no colégio cantando e as pessoas pediram bis e cantei de novo a música. Voltei para casa feliz da vida e aí... faço isso até hoje.

GT - Quais trabalhos você pretende se dedicar após essa fase?

Eu já estava no caminho para o meu segundo disco de canções originais e vou continuá-lo. O Belchior me arrebatou, gosto de pesquisar e resgatar, mas eu sou mesmo é porta voz da minha geração. E vem aí novidades, assim que passar o turbilhão ‘belchiorano’. Tenho algo a dizer musicalmente, agora mais inspirada ainda por esse trabalho, e tem canções lindas sendo feitas hoje, esse link entre o passado e o presente é o que me interessa.

GT - Suas interpretações de Belchior respeitam as nuances vocais originais, como a típica aceleração das palavras que ele colocava em alguns versos, além de outros pontos peculiares. O que mais te conecta com a obra dele que te moveu a criar esse trabalho?

Identificação total. Exemplo: um pouco depois de conhecer o Uruguai, e me apaixonar pelo país, comecei a pesquisar sobre Belchior e descobri a relação dele com o Uruguai e justamente nos mesmos lugares que eu havia passado. Isto é só uma das coincidências mil que rolaram.

`Sei que me rasgo toda em ``Coração Selvagem´´´, diz Daíra - Foto: Carolina Muait

O mais importante, claro, são as letras das canções e seu discurso e mensagem que se apresentaram para mim como "o que eu quero dizer exatamente nesse momento" - "as pessoas precisam ouvir isso!". A personalidade que podia se observar dele, o fato de ter sumido do mapa - parece até ser um dos meus amigos. E parecia que eu estava ouvindo meus próprios pensamentos ao ler as poesias dele.

Me encantei com o que ele colocava nas entrevistas, por ver muita sinceridade alí. Além de todo o discurso, para mim que sou fã, havia uma coerência até mesmo no que as pessoas normalmente não entendiam sobre ele. 

Sobre a forma de cantar dele e minha, acho que não tem o que "inventar". Ele é. Então eu sigo... no flow, com respeito, e ao mesmo tempo eu sou eu (risos).

GT - Tem alguma faixa preferida sua nesse repertório?

“Jornal Blues ou Canção Leve de Escárnio e Maldizer” é minha grande aquisição nessa história toda. Foi a música que já era incrível e que mais dei a minha cara e transformei. Mas é difícil dizer a preferida. Sei que me rasgo toda em “Coração Selvagem” - quando ouço a faixa e quando canto no show.

GT - Em sua visão, existe algum artista suprindo o vazio que o Belchior deixou na música?

Não dá para comparar. Mas ouçam El Efecto e Paulo Beto. E tirem suas próprias conclusões.

GT - Gostaria de deixar algum recado aos seguidores do Guitar Talks e quem acompanha o seu trabalho?

Fiquem ligados no meu canal no YouTube que eu tô sempre colocando coisas lá! Aho!

Ouça o disco "Amar e Mudar as Coisas" no Spotify:

Ou na íntegra também no YouTube.

Veja os vídeos ao vivo de "Alucinação", "Coração Selvagem" e "Princesa do Meu Lugar":

Seguindo a indicação de Daíra, confira a versão de Luli e Lucina para "Como Nossos Pais":

COMENTÁRIOS

PUBLICIDADE

RELACIONADAS

FACEBOOK