12/01/2017 16:16 - Atualizado em 26/01/2017 00:18

O maestro da produção Sérgio Almada

Conversamos com o fundador do Feeling e da Almada Assessoria & Planejamento

Crysthian Gonçalves
Guitar Talks
Sérgio Almada - Foto: divulgação

Se você está envolvido e ligado no que acontece na cena musical paulistana hoje, deve conhecer Sérgio Almada. Ele é o fundador de uma das casas mais respeitadas e bem sucedidas de São Paulo, o Feeling Music Bar, localizado na Vila Mariana. 

"Sérgião", como é conhecido, se dedica à música desde seus 22 anos, quando montou a escola de música Feeling. Sua extensa bagagem na música começou de berço, por incentivo de seus pais que são violinistas eruditos, mas ele também passou por uma das bandas mais emblemáticas do Brasil, quando foi guitarrista d´O Surto. Almada não quis seguir os passos de seus pais dentro da música clássica, mas absorveu deles toda essa capacidade e experiência em orquestrar grandes eventos e saber reger uma banda ao sucesso.

Recentemente ele fundou a produtora Almada Planejamento & Assessoria, que vem com a ideia de auxiliar as bandas a conseguir o seu lugar ao Sol. Ele também está nos bastidores do programa Heavy Pero No Mucho, apresentado por Thiago Deejay durante a madrugada na 89 A Rádio Rock, e em parceria com a emissora tem organizado a "Peneira Feeling Heavy Pero No Mucho" (Onde você pode saber mais por aqui).

O Guitar Talks conversou com Sérgio Almada e ele nos contou sobre o seu trabalho com a produtora, sua história na música e o novo desafio de ser o atual produtor do Dance Of Days. Confira!

Guitar Talks - Você montou a Almada Planejamento & Assessoria recentemente. Conta pra gente o que é a produtora e como ela funciona? 

Sérgio Almada - Estou com a produtora faz dois meses. A base da Almada é ter um planejamento e assessoria aliada às bandas, porque muitas vezes a banda é boa, mas não sabe pra onde ela vai. A maioria dos grupos tem a ideia do som, mas não sabem o que fazer da parte comercial e de como é que as coisas funcionam, como tem que agir pra chegar em algum lugar. Nossa ideia vem desde o primeiro casting da Feeling Produções, onde a gente era dividido entre essa parte do planejamento, mas não fechávamos shows pras bandas. Na verdade eu acho que o show agora é uma consequência de um bom trabalho. A Almada é o seguinte, ela ensina a banda a fazer o seu próprio role e a funcionar com as próprias pernas. 

Sérgio Almada - Foto: divulgação

GT - Qual a importância para uma banda hoje em ter essa estrutura por trás? 

O mercado agora exige que você seja o cara que saiba tocar pra caralho, que na parte da manhã você estude sua guitarra, entenda todas as escalas do mundo, mas que na parte da tarde você também saiba fazer as ligações certas, pras pessoas certas. Não existe esse negócio de "eu só vou estudar guitarra". Se você for, só vai estar perdido, porque o que tem de larápio nesse meio. Produtor é uma raça né? (risos) Todo mundo sabe disso e o que vai ter de gente querendo só sugar ou aproveitar, de uma falta ou carência que você tem. De o esquema é tanto, mas você vai precisar vender um monte de ingresso, ou vai doar seu equipamento... a ideia principal do negócio é fazer você saber por onde ir.

GT - Até por que há alguns anos atrás o modo de se descolar show com alguns produtores era diferente, não é? 


O que acontecia é que existia um lance, que cara, tinham mais bandas. Mas existia muita banda ruim. Aqui mesmo no estúdio os caras vinham ensaiar e antigamente havia um padrão pro sucesso onde "você precisa ser assim", e, lógico, existiam as grandes gravadoras e como estavam bancando a parada existia esse padrão. Mas vinha a galera pra cá e isso é muito louco, porque a Feeling acabou virando o que é com palco por essa necessidade. Colavam bandas com 50 pessoas, 50 fãs, 50 groupies, pai, mãe, e o estúdio pequeno praquela galera e tal. Eram outros tempos, existia uma facilidade maior com essa parada.

Por exemplo, eu mesmo com o Surto era muito louco, porque se a gente fazia um show e tinham só 4 mil pessoas nós pensávamos que estava falhando em algo e ficávamos tristes. E não era, mas agora o cara tem 200 pessoas ou 300 e sai mó feliz. É muito melhor você saber gerenciar sua carreira. Na verdade sim, o público está mais complicado. A molecada não quer mais saber de rock, o pessoal não sai mais. Elas estão muito acomodadas, por um lado que é muito bom ter a internet, mas mano, ela acaba deixando as pessoas preguiçosas. 

GT - E vocês ficavam tristes com o Surto em um show pra "só" 4 mil pessoas? 

Ficávamos! Porque o normal era ter 10 mil. Midiaticamente você tinha um zilhão de pontinhos para se chegar, mas agora você luta, luta, luta, para chegar numa parada "Showlivre" e tal. Antes tinha a parada da MTV e sinto uma puta falta de ter um canal legal, que foi degringolando, mas que era um puta canal, e começou a ter uma fórmula de se ganhar grana e acaba não ficando tão bom.

GT - Você é bastante envolvido no backstage, produção e eventos. Mas como foi que você entrou no mundo da música?

Feeling Music Bar - Foto: Iris Alves

Minha mãe e meu pai são violinistas. Só que eles queriam que eu também fosse, porque queriam que eu tivesse algo palpável, ser músico clássico de orquestra, que ganhasse décimo terceiro, carteira assinada etc. Então eu estudei no conservatório que minha mãe dava aula, e depois eu fui pra faculdade e comecei a lecionar. Mas eu odiava violino na verdade, porque não era minha cara. Eu era rock and roll! Então a prática de conservatório quando você vai se formar te obriga a saber a maioria dos instrumentos e o principal é o teclado, piano, que te da toda a base. Então eu meio que escondido falei, "pô, eu posso estudar violino se eu conseguir comprar uma guitarra?". Então vendi o skate, o boné, e peguei uma Giannini velha lá, aprendi e as coisas vieram.

Eu tenho duas formações. De músico que acompanha, onde já toquei com a Mara Maravilha, Gean e Geovane e  Paulo Ricardo. E eu sou guitarrista, toquei com o Surto, que foi uma das bandas que mais influenciaram e fizeram sucesso e tal, e é mais ou menos isso. Eu consigo ver a música com várias ramificações e não uma coisa só. Porque agora eu faço a produção da parada, estou com o Dance of Days, mais a gravação, e tenho também o lance do business. Mas se você me chamar pra tocar com a sua banda pra brincar e fazer um bagulho eu vou lá com minha guitarra sossegado (risos).

GT - Quando que você começou saber separar a música como diversão e trabalho? 

A última coisa que minha família queria na verdade era que eu virasse músico. Eu tenho a Feeling desde os meus 22 anos. Quando minha mãe percebeu que a maionese ia azedar, lá pros meus 15 anos, e me questionava sobre o violino, ela falava assim: “Tudo bem, já que você não vai ser um músico erudito e tocar em orquestra, você tem que entender que o advogado tem o escritório dele, o dentista tem o consultório dele, então você como músico vai ter que ter a sua escola de música”. Eu sou formado e a Feeling começou pequenininha comigo dando aula.

Foto: divulgação

E é muito louco porque de vez em quando a galera cola e fala: "Pô, eu fiz aula com você!" Eu estava em Santos agora e a menina falou para eu deixar ela entrar no show porque foi minha aluna. E é muito louca a separação das coisas. Eu tenho o lance profissional de músico mesmo que eu não gostava, que é foda falar isso, mas eu ia lá tocar, por exemplo... Não é que é foda... Me deu uma grande formação tocar com sertanejo, por exemplo, e eu sabia que era trabalho. Mas aí eu ia tocar com o Surto, e sabia que também era trabalho, mas eu podia tomar uma cerveja e ficar mais sossegado. Tanto que a banda agora não está na ativa e eu consigo levar minha vida, não tem esse negócio de: "Ai, minha banda". A banda é legal, se quiser voltar a fazer um som vai voltar, se não der, não tem diferença nenhuma.

GT - E vocês têm projetos de voltar?


Sempre tem. É foda né, igual você que tem uma banda. É um casamento fodido com cinco pessoas e ‘os bicho’ tem que estar muito na vibe do bagulho pra rolar. Se não você vira artista solo que é mais fácil. Mas sempre converso com os caras e trocamos essas ideias, mas a situação da vida da gente às vezes não está na mesma sintonia. 

GT - Falando um pouco da produtora Almada, o que vocês têm feito hoje e com o que planejam trabalhar? 

A produtora é uma coisa nova, mas uma continuação do que eu já fazia. Muitas vezes quando fazemos uma coisa, a gente sabe que faz, mas tem um pouco de vergonha de falar. Eu demorei dois anos para falar que sou produtor, que sei fazer isso, pegar a sua banda e levar para tal lugar. Porque mesmo como músico é diferente, eu estava aprendendo todo esse processo. É um business. A banda é um produto e as pessoas têm que entender isso.  A autoaceitação disso é fundamental. Você é um produto. Você está com uma camisa legal, um corte de cabelo maneiro. Então para a sociedade você é um produto. E a ideia da produtora em si é poder levar isso para a banda. Por exemplo, o Dance Of Days que é uma banda que eu estou produzindo agora. Tem períodos em que as pessoas me procuram e falam: "Cara, eu tenho a minha banda e eu queria fazer a produção. No que consiste?" Primeiro é você entender qual é a da banda. Não tirar a genialidade que foi a formação das coisas e a partir desse momento que você entendeu, vamos trabalhar as partes ruins, o que não foi preciso.

O Dance, é uma marca e os caras vão fazer 20 anos aí e eu sou abençoado porque estou pegando uma banda que já passou por vários produtores fodidos. E rolou um namoro forte durante um ano até que o Nenê chegou e falou que queria que eu produzisse o CD novo deles. Eu fiquei muito feliz! Então o que eu tenho tentado fazer é não tirar a história e raiz deles, mas trazer algo novo. O Nenê sempre fez tanto sucesso por ser vanguarda, e tem muita gente que odeia e muita gente que ama. E o sucesso na verdade das paradas é você não ficar em cima do muro. Não tem esse lance de querer ser algo porque a sociedade vai te aceitar desse jeito. O caralho! O bagulho é pé na porta mesmo e vai ser dessa forma, porque eu acredito nisso. E eu falo que sou abençoado por causa disso, por que o DOD na verdade é tudo que eu acho como banda.

Vai passar, é claro, está acabando o processo, eu sou produtor e fui convidado agora pra ser produtor de estrada deles também e é uma outra coisa completamente diferente. Só que produzir um EP e um disco, sentar e poder falar abertamente para os caras que têm 20 anos de estrada: "Olha eu acho que é assim" é o maior peso. E é isso, a gente está sentando e trocando ideia, e é uma coisa muito louca. Até porque está todo mundo limpo. Pra falar a real do bagulho, eu parei de usar droga, Nenê também, tá num esquema meio água, no máximo uma cerveja. Pô, eu venho de uma banda que é completamente istraquinada. E a gente está bem focado no esquema do som, sentamos juntos, um passa música pro outro. Aquele lance de músico: "Escuta essa parada!". E a gente está tentando trazer o som, timbre atual, sem perder a ternura do Dance Of Days. 

Foto: divulgação

GT - E essa formação nova, agora vai? 

Essa formação nova deu o que falar já. As coisas são um ciclo. Veio a formação do primeiro disco, que foi muito legal, mas passou. Eles já não estavam conseguindo se acertar tanto musicalmente como intimamente, e o que rolou não foi nada de treta. O Nenê cresceu muito como pessoa e conseguiu aceitar tudo isso, você pode ver que não tem treta, ele fica numa boa e o legal é isso, trabalhar com quem está afim. Ele é o ícone da parada. E os meninos que entraram eram de outras bandas, o Adriano do Cristo Bomba, o Zé que é um puta batera que toca no projeto solo do Nenê. Não mudou muita coisa.

GT - E o Verardi na guitarra sozinho já provou que segura a bronca, não é? 


Segura, com certeza. Quanto tempo eu vi o Dance com uma guitarra só e era legal pra caralho. Então isso são fases. Esses 20 anos vão dar o que falar. 

GT - Me conta sobre esse projeto em parceria com a 89 A Rádio Rock para o programa Heavyperonomucho do Thiago Deejay?

Eu conheço o Thiago Deejay há milianos e na verdade a gente tem as mesmas ideias. Nós queremos correr para um mesmo lado. E o Thiago tem essa brecha do programa e a gente conversou, trocou ideia, eu fui no programa dele com o Dance e ele me disse que via os meus posts e as paradas que eu faço com as produções e explicou que precisava de alguém assim na rádio. O programa na verdade é um puta programa liberal. Eu levei o Maneva lá para fazer um evento com o GRAAC, só que mano, no mesmo dia estava o Bayside Kings! Essa é a ideia de juntar todas as tribos numa pegada só.

GT - Muito obrigado Sergião! Você gostaria de deixar algum recado para as bandas e os leitores do Guitar Talks? Gostaria sim!

Queria agradecer você pelo espaço, e dizer que se organizar direitinho todo mundo que tiver qualidade trampa! O Movimento não é o sucesso de uma banda ou produtora, e sim de um conjunto de ideias que desembocam no mesmo canal! #multiplicaraforça

Ouça o disco mais recente do Dance Of Days, "Amor-Fati":

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