24/02/2017 18:52 - Atualizado em 01/03/2017 10:08

5 discos e músicas para entender todas as possibilidades de um Carnaval

Especial apresenta registros que trazem outra visão da festa mais popular do Brasil

Redação
Guitar Talks

Por Ladenilson Pereira
Professor, historiador e pesquisador musical


Neste espaço que apresenta curiosidades sobre discos, artistas ou sobre a própria história da música, vale a pena comentar um pouco sobre a música de Carnaval, reflexo da diversidade cultural do País. A festa é uma só, ocorre nos mesmos dias, mas ao mesmo tempo é muito diferente nas diversas regiões brasileiras. Provavelmente um visitante estrangeiro desavisado não acreditará que são manifestações do mesmo festejo os blocos de frevo e maracatus em Pernambuco, os trios elétricos na Bahia e os desfiles de escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em comum, do Oiapoque ao Chuí apenas a alegria, a descontração e o clima de liberdade. Para meu espanto, vejo a cada ano um número bastante significativo de jovens comentar que não aprecia o reinado de Momo, tornando cada vez mais recorrente a expressão “fugir do Carnaval”. Os motivos, os mais variados: desde razões de consciência até ojeriza às músicas do período. Quanto aos primeiros, respeito e me silencio; quanto aos últimos, tenho alguns comentários a fazer.

Muitos afirmam que as músicas carnavalescas são totalmente descartáveis, não apresentando o menor nexo, ou quando muito, formam um gênero menor. Apressada e descuidada como toda generalização, esta peca por tentar esconder e menosprezar a riqueza das marchinhas, a complexidade do frevo, a rica história dos trios elétricos da Bahia e a beleza de muitos sambas-enredo. Para quem deseja se aprofundar neste fascinante universo, vou dar algumas sugestões de álbuns que merecem uma audição minuciosa. Nem todos são facilmente encontráveis nas lojas, mas hoje em dia, com o advento da internet, suas faixas são facilmente localizáveis.

Quardo ``Boemia´´ de D. Esteves - Foto: reprodução

SASSARICANDO - E O RIO INVENTOU A MARCHINHA

Álbum duplo com os melhores momentos do espetáculo teatral homônimo organizado por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral. Lançado pelo selo Biscoito Fino em 2007, a obra apresenta o gênero como verdadeiro documento sonoro do cotidiano e costumes da então Capital Federal entre as décadas de 30 e 60. Lá estão as sátiras ao funcionalismo público e a mistura dos interesses públicos e privados como “Barnabé”, “Maria Candelária” e “Eu Também Quero Roubar”; declarações de amor à cidade como “Cidade Mulher” e “Jacarepaguá”; as históricas “Abre Alas” e “Hino do Carnaval Brasileiro” ou as políticas “História do Brasil” e “A Menina Presidência”. O final não poderia ser outro: com gostinho de quero mais surge “CIDADE MARAVILHOSA”, o hino oficial do Rio de Janeiro.

100 ANOS DO FREVO – É DE PERDER O SAPATO

Gravado em 2006, igualmente pela Biscoito Fino, no bojo do centenário do ritmo que marca o Carnaval de Pernambuco, a obra consiste em dois discos. No primeiro, o frevo aparece instrumental, como em seus primórdios, interpretado pela Spok Frevo Orquestra. Ali estão temas clássicos como “Gostosão”, “”Frevo da Meia Noite” e “Mordido”; contudo, meu destaque fica por conta de “Fantasia Carnavalesca”, uma criação sobre o antológico “Vassourinhas”. O segundo CD apresenta a influência do gênero na MPB com faixas como “Frevo Rasgado” de Gilberto Gil, “Frevo Diabo” de Edu Lobo e Chico Buarque, “Frevo nº 1” de Antônio Maria, “Energia” de Lula Queiroga, “Madeira que Cupim Não Rói” de Capiba, “Tempo Folião” de Geraldo Azevedo e “HOMEM DA MEIA NOITE” de Alceu Valença. O encarte contando toda a história deste estilo é uma verdadeira aula, de tão didático. Simplesmente imperdível!

“FOLIA ELÉTRICA” – Armandinho e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar

Um verdadeiro tapa na orelha (no bom sentido) para todos que pensam que o Carnaval da Bahia é sinônimo de música pouco elaborada ou com referências de gosto duvidoso. Neste disco de 1982, lançado pela Som Livre, os músicos do primeiro trio elétrico (surgido no ano de 1950, que em sua origem era apenas um calhambeque Ford de 1929) aparecem muito bem acompanhados do guitarrista Armandinho (filho de Osmar e à época exibindo o melhor de sua forma no grupo A Cor do Som). No repertório, temas instrumentais (como era o costume dos trios até os anos 70) e faixas cantadas. Dentre as primeiras, saliento “Trielétrica”, “Beethoven Aí” (improviso sobre o Primeiro Movimento da célebre “Quinta Sinfonia”) e “Jazziquifrevo”. Quanto às segundas, meu destaque fica por conta de “Satisfação” (clara alusão à época em que os guitarristas se limitavam a executar de tudo, inclusive a clássica canção dos Rolling Stones), “Vida Boa” (seria revisitada por Caetano Veloso cerca de quinze anos depois em “Prenda Minha”) e a extremamente crítica “CADÊ O TRIO?” composta a partir de uma arbitrária exclusão dos legendários músicos pelos organizadores da festa em Salvador.

“MUITOS CARNAVAIS” – Caetano Veloso

Lançado em LP pelo craque da MPB em 1977, sob o selo Philips, reunia faixas anteriormente lançadas em compactos simples para os dias de folia. O talento caetanesco se fazia presente desde a capa, na qual, com um toque a la Federico Fellini, aparecia com apenas metade do rosto maquiado como um pierrô. No luxuoso repertório destacam-se “Chuva, Suor e Cerveja (Rain, Sweat and Beer)” com suas sofisticadas figuras de linguagem e subtítulo brincando com a famosa expressão “Blood, Sweat and Tears”(Sangue, Suor e Lágrimas) dita por Churchill durante a Segunda Grande Guerra; “Atrás do Trio Elétrico”, na qual, abusando do direito de ter talento, o compositor capricha nas aliterações; “Deus e o Diabo”, onde conta um pouco dos desfiles que passavam pela Rua Chile até a Sé; “A Filha de Chiquita Bacana”, clara homenagem à marchinha de Braguinha; “Cara a Cara” e sua letra utilizando recursos estilísticos da poesia concreta; e “UM FREVO NOVO”, em que, parodiando o famoso vate baiano do século XIX fala que “A Praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião”.

“ESCOLAS DE SAMBA” – série Focus, coleção “O Essencial de...”

Lançado em 1999 pelo selo BMG RCA, a coletânea traz todos os sambas-enredo campeões do Rio de Janeiro entre 1981 e 1999. As faixas apresentam um painel bastante representativo das transformações sofridas pelo gênero nestas duas décadas. Há homenagens a figuras da cultura brasileira como Lamartine Babo (“O Teu Cabelo Não Nega - Só dá Lalá)”, Braguinha (“Yes, Nós Temos Braguinha”), Dorival Caymmi (“Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”), Carlos Drummond de Andrade (“O Reino das Palavras”) e Chico Buarque de Hollanda (“Chico Buarque de Mangueira”). Surgem também episódios da História do Brasil como a Abolição, a proclamação da República e a Semana de Arte Moderna representados respectivamente por “Kizomba, a Festa da Raça”, “Liberdade! Liberdade! Abre as Asas Sobre Nós” e “Paulicéia Desvairada, 70 Anos de Modernismo” e até mesmo o metalinguístico “BUM BUM PATICUMBUM PRUGURUNDUM”. A faixa, responsável pela última vitória do Império Serrano, em 1982, apresenta uma riqueza de detalhes: desde o título (e refrão) que alguns entenderam como uma chula menção ao requebro das passistas, à explicação dada por seus autores que pretendiam registrar a onomatopeia do som de um surdo; até a letra crítica na qual é narrada a origem simplória do desfile das agremiações na Praça XI até o fausto da Marquês de Sapucaí, onde o luxo dos carros e fantasias suplanta a garra dos passistas.

Espero haver mostrado que entre o anoitecer da sexta e as cinzas da quarta-feira, há muito mais do que simplesmente toque de clarins ou batuque de percussão. Se você não gostou, peço perdão e educadamente me despeço com os versos de Zé Keti: “Não me leve a mal, hoje é Carnaval”.

Ladenilson Pereira é autor da coluna diária "Hoje é dia", aqui no Guitar Talks. 

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