04/10/2017 01:08 - Atualizado em 07/10/2017 00:07

Angolanos no Brasil - uma rota musical

Jornalista Sara Alves explorou a riqueza cultural de Angola e os frutos que brotam por aqui

Colaboração
Guitar Talks
Gugas Sakandeya - Foto: arquivo pessoal

Por Sara Alves
Edição final: Marcos Ferreira

O Brasil é considerado um dos países mais acolhedores do mundo. E não é à toa. As leis de imigração e apoio às comunidades internacionais facilitam a entrada de pessoas de diversas nacionalidades em todo o território federal.

Ao decorrer dos últimos anos, muitos angolanos têm ingressado em universidades brasileiras. Eles recebem o apoio de seu país e embarcam para uma nova aventura acadêmica. O apoio existe para contribuir com a carreira desses jovens para que depois de formados eles retornem devidamente capacitados para atuar em sua terra natal.

Atualmente estima-se que mais de 1.100 cidadãos angolanos estão registrados no Brasil, a maioria estando no país com vistos de estudante ou de trabalho. Essa pequena, mas considerável parcela de imigrantes chega por aqui em busca de uma nova oportunidade para obter conhecimento.

Isso é justificável. A Angola é um país em reconstrução. Durante quase três décadas, a nação atravessou uma guerra civil. Hodiernamente, a herança dessa mancha histórica é educação, um dos principais desafios do governo. Base do desenvolvimento de qualquer lugar no planeta, o ensino de lá sofre a precariedade da falta de recursos.

Colonizada por Portugal, a República de Angola só ganhou sua independência em 1975. A vitória popular virou palco para outro problema. Confrontos datados desse período até 2002, envolvendo o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) devastaram a economia local, freando qualquer chance de prosperidade e desenvolvimento social. Apenas em 4 de abril daquele ano foi assinado um tratado de paz que começou a apagar as marcas de um tempo sangrento.

Buscando um amanhã mais sólido, o Brasil, que compartilha do mesmo idioma originado dos lusitanos, se tornou uma opção positiva para a juventude do país que, por meio de escolas e centros universitários particulares, oferece planos de bolsa que incluem o internato. Um exemplo é o Unasp, uma faculdade no interior de São Paulo que abre espaço para facilitar a inclusão de estrangeiros.

O estudante Gugas Sakandeya, por exemplo, cursa pedagogia por aqui. Ele veio da Angola trazendo todo o seu entusiasmo e carisma em busca de um futuro melhor. Transmitindo a felicidade de quem aproveitou a chance de estudar fora, Gugas chegou ao Brasil em 2014 e hoje está prestes a se graduar.

Coral de Angolanos do Unasp - Foto: Facebook oficial / reprodução

Longe de sua terra natal, o imigrante encontrou uma forma de se sentir em casa; a música. De uma formação cultural muito distante da nossa, a maneira como os angolanos cantam soa diferenciada. Ritmos alegres e uma felicidade contagiante fazem parte da criação de cantigas que compõem a tradição de Angola, lugar sempre reconhecido por importantes festivais de dança e festas típicas.

Por aqui, Gugas participa de um coral e de um grupo de canto. Encurtando os laços com suas origens, o ato de exercer a música vai além de um hobby. Ele garante que canta de coração. “Quando eu subo no palco, eu faço muito mais do que cantar, eu mostro a cultura angolana, e isso é uma sensação incrível. Percebo que as pessoas se emocionam tanto com a mensagem da música, como por meio das coreografias e das roupas típicas que usamos”, conta o estudante. 

O coral que Gugas participa possui um repertório com dois dialetos o kimbundu e o Umbundu, ambas línguas bantas muito faladas por lá. O repertório vai de canções tradicionais angolanas a músicas refletindo um contexto cristão.

O grupo musical começou entre os anos de 2009 e 2010, e todos os coristas eram universitários, lembra o músico Domingos Madeira, maestro do Coral dos Angolanos. O sucesso foi imediato. O conjunto se tornou popular na faculdade e passou a receber apoio da direção acadêmica.

As artes mostradas por aqui é um reflexo da força do que é produzido no país da capital Luanda. E essa riqueza cultural de Angola é variada. No artesanato observam-se estatuetas de madeira, instrumentos musicais, máscaras para danças com rituais, pinturas a oleio e areia.

Gugas Sakandeya - Foto: arquivo pessoal

Diversas festas típicas são promovidas por etnias locais. A música permeia o DNA angolano, sendo um grande destaque com ritmos alegres e dançantes. Os principais estilos musicais são os kizomba, semba, rebita e cabetula.

Outro gênero musical forte de Angola, e que ganhou popularidade no Brasil, é o kuduro, uma mistura de sungura com rap. A ideia surgiu em 1995, por meio da mente do músico Tony Amado, que teve inspiração ao assistir o filme “O Desafio do Dragão” (1989), com Jean-Claude Van Damme.

A clássica cena na qual o ator aparece dançando de forma curiosa inspirou Tony a criar os passos de dança. A técnica criada por ele consiste em manter a “bunda dura” e se remexer de forma agressiva e agitada. O estilo ganhou popularidade instantânea e diversas adaptações por todo o mundo.

Conhecendo um pouco da Angola - política e riquezas naturais


Mesmo vivendo um recente pós-guerra, o país vem conquistando taxas de crescimento entre as maiores do mundo, porém a desigualdade social permanece alta. Os números são alarmantes. Segundo levantamento, 70% da população vivem abaixo da linha da pobreza. O valioso patrimônio do país está concentrado nas mãos de uma minoria milionária.

Por outro lado, a Angola é um país rico em belezas naturais. Com lugares de tirar o fôlego de turistas de qualquer continente. Entre os locais mais procurados está as Quedas de Kalandula, na província de Malanje. Trata-se de cascata que ganhou a posição de segunda maior queda d’água da África.

O país também oferece uma grande variedade de reservas ecológicas. O parque nacional da Quiçama é um desses exemplos. Localizado a 75 quilômetros da capital, o lugar é composto por savana, manguezais, mata densa, cactos e imbondeiros (árvore típica da África).

Na maioria dos parques, o visitante pode ter contato com muitos animais em seu habitat, como elefantes, girafas, bâmbis, gazelas, zebras, entre outros expoentes da natureza do continente.

A população atual de Angola é composta por vários grupos étnicos como o Ovimbundu, Ambundu, Bakongo, Côkwes, Ovambos, Vambunda, Xindongas, mestiços (europeus e africanos), chineses e europeus.

Essa mescla permitiu ao país a convivência respeitosa entre crenças. Mesmo de maioria cristã, a diversidade ecumênica se destaca com aproximadamente 1.000 religiões em todo o território nacional. 

Confira um pouco da música feita pelo Coral de Angolanos do Unasp:

Sara Alves Ribeiro, 25 anos. Nascida em Aimorés, Minas Gerais. Estudou jornalismo em São Paulo. Já trabalhou em agências de jornalismo como repórter e foi produtora no Jornal Primeira Página na rádio educativa Fm 91.3. Seu sonho é ser correspondente internacional, por isso, estuda Direito e Inglês.  

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