30/10/2017 01:11 - Atualizado em 30/10/2017 01:16

Faixas para entender os shows de Chico Buarque

Depois do lançamento de “Caravanas”, as atenções se viram para a nova turnê do artista

Colaboração
Guitar Talks
Chico Buarque imprimiu seu DNA em suas disputadas turnês - Foto: Leo Aversa

Passada a expectativa por mais um disco inédito de Chico Buarque, começa uma outra contagem regressiva: por sua turnê pelas principais cidades brasileiras. Tão justificada quanto à primeira, ela é ansiosa e legitimamente aguardada por sua legião de fãs.

Não sem razão... A estrela maior da MPB, em sua cinquentenária carreira, há quase duas décadas vem produzindo num ritmo mais espaçado (seu recém-lançado “Caravanas” sucedeu “Chico” de 2011, que por sua vez substituiu “Carioca” de 2006), e enveredando com muito êxito pela Literatura. Que o digam as boas vendagens e os prêmios recebidos por “Benjamin”, “Budapeste”, “Leite Derramado” e “O Irmão Alemão”, só para ficarmos em suas mais recentes obras.

Numa tradição iniciada quando do lançamento de “As Cidades” (1998), o artista nos brinda com um álbum ao vivo, em sequência ao seu disco de estúdio. Tão bons quanto, os registros de seus shows mostram que, ao contrário do folclore do artista tímido e que não gosta de se apresentar, existe um cantor muito maduro, seguro de si e com boa interação com seu público. Deste modo, quero dividir com o amigo leitor e internauta, alguns bons momentos desta faceta de sua obra.

Por Ladenilson Pereira
Edição final: Marcos Ferreira

CAETANO E CHICO - JUNTOS E AO VIVO” (1972): além de ter o mérito de reunir num único trabalho os dois maiores nomes da MPB de sua geração, apresenta faixas ímpares, como por exemplo, Chico interpretando “Janelas Abertas nº 2” de Caetano, além do dueto em “Bárbara” com ruídos de palmas e outros sons, abafando trechos da letra mutilada por ordem da Censura. Igual recurso se verifica em “BOM CONSELHO”, com seus versos invertendo ditos populares e conclamando a uma postura de resistência diante do Regime Militar.

CHICO BUARQUE & MARIA BETHÂNIA AO VIVO” (1975) também é rico em faixas emblemáticas, como por exemplo, uma versão apenas instrumental de “Tanto Mar”, (outra joia buarqueana vítima das tesouras do arbítrio). Tudo isto sem mencionar no dueto em “Sinal Fechado”: a canção dura apenas um minuto, mas a alternância de vozes faz com que a mensagem de Paulinho da Viola (a rapidez do cotidiano esgarçando os laços de interação pessoal) se torne cristalina. Outros momentos muito significativos são igualmente em duetos: “Olê, Olá”, “Noite dos Mascarados” e “SEM FANTASIA” em que a dualidade masculino/feminino do discurso amoroso é apresentada com raro requinte, sobressaindo-se a  beleza dos inspirados versos de Chico acrescidos da primorosa voz da cantora baiana.

CHICO BUARQUE AO VIVO - PARIS LE ZENITH” (1990) além de mesclar faixas de todas as fases da carreira do cantor e compositor até então, apresenta os registros únicos de “Joana Francesa” e “Rio 42” em sua voz (ambas as faixas podem ser encontradas, respectivamente, nas vozes de Jeanne Moreau e Bebel Gilberto em outros álbuns buarqueanos). Como se fosse pouco, o trabalho dá início a outro momento muito especial de seus shows: faixas tendo a participação de membros de sua banda de apoio. Nesta ocasião, o escolhido foi Mestre Marçal (o percussionista foi o responsável por introduzir a frase “Ora se vai” na primeira gravação de “Vai Passar”). O talentoso e inesquecível sambista aparece nos vocais de “Sem Compromisso” de Geraldo Pereira e em “DEIXA A MENINA”, samba de Chico Buarque lançado em 1980 no disco “Vida”.

CHICO AO VIVO” (1999) inicia a sequência de registro das turnês em seguida ao disco em estúdio como mencionei no início do artigo. Dentre os destaques estão os vocais de Bia Paes Leme e Marcelo Bernardes numa delicada segunda voz, respectivamente em “A Ostra e o Vento” e “Injuriado”, além da gravação de “Sem Você” de Tom e Vinícius. Contudo, nenhum momento da obra supera a sutil brincadeira na interpretação de “BANCARROTA BLUES”. Durante a execução da canção, o craque da MPB apresenta um a um os componentes de sua banda. Chega ao clímax da homenagem ao dizer que se orgulha de todos e faz questão de tê-los ao longo de tantos anos, elogiando-lhes as qualidades. Logo em seguida, a sinceridade é posta em xeque pela retomada dos versos da música: “Mas eu posso vender/ Quanto quer pagar?”

O carioca Wilson das Neves nos deixou em 26 de agosto de 2017 - Foto: Daryan Dornelles

CARIOCA AO VIVO” (2007) abre com a significativa “Voltei a cantar” de Lamartine Babo (“Voltei a cantar/ porque senti saudades”), a calorosa reação da plateia, entendendo a mensagem, dá início ao desfile de seus sucessos entremeados das faixas do CD lançado no ano anterior. A interação com a plateia volta a ocorrer no final do trabalho, com o público cantando junto em “Sem Compromisso”, “Quem Te Viu, Quem Te Vê” e “João e Maria”. Para quem ficou com saudade da bela voz de Bia Paes Leme atuando em conjunto com o renomado artista, ela é satisfeita ao som da delicada “Imagina”. Contudo, meu momento predileto deste trabalho é o dueto com o recentemente falecido Wilson das Neves em “GRANDE HOTEL”.

NA CARREIRA” (2012) pega o título emprestado de uma faixa de “O Grande Circo Místico” (1983), na qual é narrada a corrida vida de artista. Desta forma, é a fórmula perfeita para fazer desfilar as faixas de “Chico” alternadas de grandes sucessos da trajetória do vitorioso intérprete. Meu destaque das surpresas encontradas neste álbum fica por conta de dois pitorescos momentos. Inicialmente, o hilário dueto com o inesquecível Wilson das Neves em “Sou Eu” e “Tereza da Praia”, completando com o sensacional “RAP DO CÁLICE”, no qual o mestre rende homenagens ao talento do rapper Criolo, saudando-o pela releitura de “Cálice”, com direito a saudação “...evoé, jovem artista” presente na antológica “Paratodos”.

Por tudo isso, vale muito a pena acompanhar a internet e desembolsar algumas centenas de reais para a excursão de “Caravanas”. Se, infelizmente, o amigo ficar a ver navios, não fique triste, basta conferir o CD ou DVD que certamente virá.

Ouça o disco "Caravanas":

Veja a capa do álbum em detalhes:

Foto: reprodução

Ladenilson Pereira - Formado em História e Direito pela USP, Mestre em Educação pela Uninove, Professor Universitário na FALC (Faculdade da Aldeia de Carapicuíba), Professor de História no MED Vestibulares e também leciona na rede pública estadual paulista. Ele colabora com o Guitar Talks desde setembro de 2013. Exerce seu primeiro mandato como vereador de Carapicuíba.

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