01/05/2017 02:21 - Atualizado em 15/05/2017 11:10

Volta Belchior...

“E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”

Marcos Ferreira
Guitar Talks
Belchior - Foto: divulgação

“Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar”. Pô, Belchior, porque nos deixastes e não voltou? Acho que nunca saberemos os motivos que Bel partiu, só há a certeza que o poeta desapareceu cedo demais.

“João, o tempo, andou mexendo com a gente sim. John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente”. Pois é. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, um dos maiores nomes da música brasileira, como ele mesmo dizia, estava recluso, escondido dos holofotes, mas andava tão vivo.

Vão dizer agora que sairá fã de Belchior até dos bueiros. Enquanto o noticiário lembrar o caso, ele será revisitado, reverenciado. É tão comum, mas com esse “rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso” não.

Dias atrás, uma porrada de bandas da cena underground se reuniu para um tributo ao cearense de bigode farto. Não fui. Sinceramente nem sei quais grupos tocaram, mas eram nomes relevantes, galera jovem, reconhecendo o trabalho de um cara diferenciado da nossa música. Devia ter ido.

Bateu arrependimento, agora estou “mais angustiado que um goleiro na hora do gol”. Mais chato ainda é nunca ter visto Bel no palco. Há tempos atrás esse desejo passava-me longe. Conhecia Belchior de uma faixa só. Para mim era aquilo. Lembrava dos Mamonas Assassinas brincando com seu timbre de voz. Nada mais.

Quando descobri que “Como Nossos Pais” era de sua autoria, fiquei encantado, mas não foi o suficiente para estreitar as paralelas que minha formação musical tinha de seu trabalho. De repente, há muito pouco tempo, conferi o tremendão Erasmo Carlos interpretando um lado b de sua carreira. Foi um estalo que surgiu. Como nunca notei esse cara?

Aos poucos fui conhecendo sua poesia, sua criatividade, suas curvas de voz. Sua genialidade. De repente, estava me vendo como um fã, um conhecedor de sua obra, ainda engatinhando pelos caminhos de sua música. Pedi no bar: “Toca Belchior!”.

Descobri seu folk, sua MPB, a angústia, o grito, sua influência escondida em muitas coisas que faço e nem sabia. Tinha Belchior nos detalhes, nos influenciados que me influenciaram, nos intérpretes que respeito e exalto. 

Passei a baixar suas faixas, dedilhei uma ou outra no violão, pedi à minha banda para colocá-lo no repertório. De repente, Belchior desapareceu. Nos deixou órfãos, mas sua obra estará aí para que mais desavisados como eu possa conhecer e se perguntar como passou uma vida sem seus discos.

“O que é que pode fazer o homem comum neste presente instante senão sangrar?”. Nada, Belchior, nada. “Até mais ver, meu camarada. Contigo em mim e ainda em ti, vou indo em dois, qualquer distância entre nós, tornada em nada, só assinala um novo encontro pra depois.”

Volta Belchior...

E fica aqui minha favorita... (ontem mesmo imaginei esse encontro em disco... fica para a próxima)...

E tantas outras...

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