Rasuras


Artista: ruído/mm
Álbum: Rasuras
Gravadora / Sinewave 
Categoria: Intrumental
26/09/2014 14:45 - Atualizado em 04/11/2014 00:57

Em letras minúsculas, ruído/mm proporciona um show de sensações

Banda ousa nos padrões de música instrumental sem perder a métrica

Marcos Ferreira
Guitar Talks

Depois de três anos do lançamento do álbum “Introdução à Cortina do Sótão”, a banda curitibana ruído/mm (leia-se ruído por milímetro, escreva-se em minúsculas mesmo) volta com “Rasura” (Sinewave / 2014), um álbum maduro de um dos expoentes da música instrumental no Brasil.

Resumir ruído/mm como uma banda de rock pode até ser um erro, ou não se pensarmos nas misturas sonoras que o gênero absolve em todas as suas fases.

Com masterização assinada por Mark Kramer, “Rasura” foi resultado de um projeto de mecenato aprovado pela Fundação Cultural de Curitiba, com incentivo da Caixa Econômica Federal.

Dona de um ruído limpo, a banda mostra em seu novo trabalho uma mescla de possibilidades que conseguem causar sensações diferentes em cada uma das oito faixas.

“Bandon” abre o trabalho com sons que parecem vir de longe, uma guitarra passeia por acordes tendo de fundo um piano doce de ninar. Uma bateria suave e limpa contrasta com ruídos de distorção como numa trilha de cinema. A música ganha força e segue com solos bem estruturados.

Ao contrário de muitos grupos instrumentais, a veia jazzista mostra sua influência sim, mas ouvindo o disco o improviso não é aparente. Tudo soa em seu devido lugar. Matemático. Um ‘duelo’ de baixo e guitarra entrega a total coerência e competência dos músicos em executar a faixa.

O disco segue com “Eletrostática”, pensada milímetro por milímetro (o trocadilho é proposital). A guitarra surge distorcida e logo se junta a uma bateria tribal e um arpejo de guitarra. É também uma prévia de canção de ninar (no sentido positivo). A batida vira um meio quatro por quatro e o solo de guitarra que surge faria inveja a Thom Yorke e seus amigos do Radiohead. Parece ser uma faixa extraída do disco “OK Computer” (1997).

ruído/mm - Foto: divulgação

“Cromaqui” vai em caminho oposto. Um rock mais denso, com guitarras afiadas, e uma linha de baixo precisa. A base suja e um teclado psicodélico dão o clima. “Transibéria” é uma explosão sonora. Um trem surge correndo trilhos à dentro (sei lá eu, imagino a cidade turística de Morretes no Paraná e seu belo passeio de locomotiva). Piano e notas espaçadas. O baixo ativo bate no ouvido suavemente e um bumbo emitindo sons de trovão faz a música crescer até o ápice que a devolve ao clima inicial adicionado a um coro quase gregoriano.

A música “Inconstantina” vem na emenda com o ruído indecifrável da guitarra conversando com outra em dedilhado e outra no solo. A bateria corre como num filme de ação. É rock. O teclado sobe com a banda em uma das faixas mais cheias do disco. Os espaços somem e a música vai levando o ouvinte para longe até quase morrer e voltar numa outra pegada de tempo até acabar com uma explosão.

“Filete” é outro enigma e quem me vem à mente é o Pink Floyd. A psicodelia Prost-rock sobre uma batida certeira e reta segue depois com solos de guitarra e piano. O ruído está lá na distorção. Tudo alocado em cada espaço. Volto a repetir; numa sincronia matemática.

“Requiem for a western manga” inicia com diálogos num clima faroeste (mas estamos falando de um manga). O título pode fazer vários sentidos, como um cerimonial de descanso. É uma faixa triste que mesmo com o peso só realça a força das notas menores (escalas tocadas em todo o disco). Um pouco de Fantasma da Ópera e Chopin. É uma salada de sons.

E para fechar, a banda te joga em “Penhascos, Desfiladeiros e Outros Sonhos de Fuga”, que começa com a bateria solta repicando como uma marcha de exército. Nasce na melodia um som de “u” que não decifrei se vinha de algum vocal ou de outro instrumento. É uma música para se ouvir ao ar livre. De olhos fechados. A faixa se exalta na guitarra e desce ladeira abaixo num solo de notas prolongadas. Até que tudo muda. Baixo, bateria e guitarra brincam com o tempo como num jogar de olhos para depois retornar numa canção que atiça a vontade de sair por aí tocando alguma coisa até que um acorde solto de guitarra põe fim à música.

O disco é uma explosão de sensações que necessita que o ouvinte feche os olhos e abra a mente para embarcar nessa viagem. Vale muito conferir!

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