Stone Temple Pilots


Artista: Stone Temple Pilots
Álbum: “Stone Temple Pilots”
Gravadora: Rhino Entertainment
Categoria: Rock / Grunge / Hard Rock
19/03/2018 04:42 - Atualizado em 21/04/2018 15:30

Stone Temple Pilots se desfaz do duplo luto em novo disco

Álbum de inéditas da banda impressiona pelo DNA intacto em cada faixa

Marcos Ferreira
Guitar Talks
Stone Temple Pilots com Jeff Gutt - Foto: div

Perder um integrante é duro. Se essa perda for pela brusca forma da morte, muito pior. Quando isso acontece com o vocalista, natural estandarte de uma banda, nem se fala. Quando isso acontece duas vezes. Melhor parar por aí.

Esse meu conselho não foi ouvido pelo Stone Temple Pilots. Ainda bem. Mesmo que é bom pontuar, a história não é bem essa. Não da maneira como expus nesse primeiro parágrafo.

Depois da saída - na verdade expulsão / demissão - do problemático Scott Weiland pela segunda vez, em 2013, Robert DeLeo, Dean DeLeo e Eric Kretz recorreram a sangue novo. Foram atrás de uma voz diferente e recrutaram Chester Bennington, do Linkin Park.

Alguns se agradaram. De fato, Chester se esforçou para soar tão natural ao som como o antecessor Weiland, mas ainda muitos estranhavam. Talvez pela força do Linkin Park, as diferenças se destacavam. 

Contudo, um EP foi lançado. O STP não estava morto. Alguns shows rolaram bem, mas era pouco para uma banda de tão grande porte ficar à sombra de um vocalista extremamente comprometido com seu outro projeto. Mas para entender um pouco tudo isso que quero falar, precisamos voltar ainda mais a fita.

Fundado em 1985, o grupo lançou seu primeiro disco só em 1992. Daí já começou a saga de superações. Tido como um resquício aproveitador da onda grunge, a faixa de maior impacto, “Plush” foi constantemente equiparada a uma cópia de Pearl Jam. Mas o disco que abrigava a canção, “Core”, tinha outras boas surpresas.

Assim também foi com o criativo “Purple”, de 1994, e “Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop”, de 1996. Sem tanta força, também teve os bons “Nº 4” (1999), “Shangri-La Dee Da” (2001) “Thank You” (2003) e “Stone Temple Pilots” (2010).

Mesmo com as excentricidades de Scott Weiland, que nesse meio tempo ainda reservou espaço para integrar o supergrupo Velvet Revolver, com membros do Guns N’ Roses, o STP se manteve como uma banda de discos de qualidade.

STP com o falecido vocalista Scott Weiland - Foto: arquivo

Flertou e se saiu bem tanto com o grunge quanto com o hard rock. Mas com as idas e vindas de seu cantor (o STP já havia se dissipado em 2002 e voltou à cena em 2008), a escolha meio esquisita de um novo nome para os vocais e... sua saída pouco tempo depois foram impactantes demais. 

Chester Bennington deixou a banda em 2015, poucos meses antes de Scott Weilland ser encontrado morto no ônibus de seu então grupo, Scott Weiland & The Wildabouts. Mesmo abalados, os remanescentes anunciaram a procura por um novo nome para o posto em 2016. 

O Stone Temple Pilots surpreendeu e escolheu como novo integrante o talentoso e versátil Jeff Gutt, provindo do reality X-Factor. Enquanto boa parte do público voltava a criticá-los por tentar sobreviver a todo custo, apelando aos malfadados programas de talento, Chester deu fim à própria vida em julho de 2017.

A morte passava de raspão pela banda mais uma vez. Se pensarmos bem, os cantores do STP nunca morreram de fato no grupo. Ambos já estavam fora, mas inevitavelmente ligados ao nome do conjunto.

Traumatizante demais para qualquer um, mas mesmo assim eles continuaram. Para nossa grata surpresa, no último dia 16 de março, foi lançado em todo mundo o disco homônimo, o segundo com o mesmo título. O primeiro disco cheio desde 2010, e também o primeiro desde a saída de Scott.

Stone Temple Pilots - Foto: div

Para resumir, o álbum de 12 tracks produzidas pelos irmão DeLeo traz em cada uma delas a essência do que costumamos a identificar como STP. O novo trampo dos caras começa com "Middle of Nowhere". Os vocais de Jeff Gutt soam muito bem, lembrando com clareza Weiland em sua fase mais Velvet Revolver.

A ótima bateria em "Guilty" e todo o instrumental bebe em Led Zeppelin. As vozes continuam se assemelhando, mas não como um plágio barato, mas revelando familiaridade à essência do som dos caras. 

“Meadow", o primeiro single do álbum, parece crescer quando ouvida na sequência com as outras faixas. Gutt se mostra muito bem dentro do STP que nem parece ter se juntado a tão pouco tempo aos demais.

"Just a Little Lie" e "Six Eight" trazem energias das guitarras mais pesadas, uma característica da banda. "Thought She´d Be Mine" vem mais suave, mas com uma pegada gostosa para se ouvir no carro. A impostação da voz é mais uma vez espontaneamente familiar.

"Roll Me Under" já é mais louca de novo, mas agradável no montante, do mesmo jeito que a pegada blues de "Never Enough". Às vezes me assusto em supor que Jeff Gutt possa pegar um megafone e botar um cap e sair por aí entoando seus versos. Ele não precisa disso.

"The Art of Letting Go” é outra mais leve. O máximo de uma balada que conseguem fazer. A linha de baixo é precisa e a voz não muito grave passeia com segurança pelo instrumental.

Capa do novo disco - Foto: rep

"Finest Hour" é uma homenagem direta a Weiland e Bennington. Uma ótima letra com versos que dizem "A arte de deixar ir", "Você nunca disse adeus / você deixou um vazio que é como nenhum outro / eu sei por que é verdade". É uma música emotiva, mas sem sair do contexto do álbum.

A letra ainda cita coisas como: "Não vou esquecer esse sorriso / foi contagioso como nenhum outro / Eu seguro o nosso precioso tempo até o céu / Eu sinto falta de você, irmão / Espero que você saiba que é verdade".

Como comparação nem sempre é demais, mesmo sendo desde o início, há um ‘q’ de Layne Staley (falecido vocalista do Alice in Chains) em "Good Shoes". Parece que Gutt bebeu em todas as influências e lembranças que fazem bem ao Stone Temple Pilots.

"Red & Blues" fecha o disco com cautela. Suave e comedida. É uma canção com violões e guitarras. Gostosa pra caramba. 

Se o Stone Temple Pilots procurava um vocalista que soasse como Stone Temple Pilots, eles acharam. Jeff Gutt caminha com tranquilidade pelas composições dos colegas. Talvez com mais facildade que Weiland em alguns momentos.

Não desmerecendo o talento dos falecidos cantores, nem enaltecendo um disco bom, mas não perfeito. O foco é pensar como um vice-campeão de reality show se encaixou tão bem numa banda que poderia ter tudo, mas que perdeu.

Talvez a simplicidade e o talento de Gutt sejam capazes de manter a chama acesa com qualidade no Stone Temple Pilots ainda por muito tempo.

Ouça o disco aqui:

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