13/06/2017 09:50 - Atualizado em 13/06/2017 10:40

Uma cobertura subjetiva do maior festival de Rock Nacional do Brasil

Caio Luiz esteve no João Rock 2017, deu suas impressões sobre o evento, e de quebra entrevistou os organizadores

Colaboração
Guitar Talks

Por Caio Luiz
Edição Final: Felipe Madureira

Se você quiser ser tragado por um déjà vu em forma de tornado de tudo que foi produzido pelo pop rock brasileiro dos anos 1980, 1990 e 2000, o João Rock é o lugar certo. Se você fizer como eu, que pulei de palco em palco atrás de fotos, é inevitável vivenciar essa centrífuga de pot-pourri panorâmico auditivo embalado pelo CPM 22 berrando “Dias Atrás” para completar com o Capital Inicial te levando de “Veraneio Vascaína” para um breve protesto político “ducaralho” quando rola “Que País é Esse?”.

Sim, túnel do tempo. Você paga o ingresso, aguenta um frio da porra, numa cidade que normalmente te assaria com 33 ºC, e durante uma noite presencia um resumo da música popular nacional e relembra todos aqueles clipes que entupiam a MTV. Gabinete de memórias revisitadas de quando você, em 1996, não dava a menor bola para o Alceu Valença porque ele só fazia trilha de novela e achava que da hora mesmo era a “sofrência Gessingueriana” declamada de “Pra ser Sincero”.

Ou melhor, saltando para 2003, lá estava você com a voz oscilando, tentando não desafinar, cantando as músicas da Pitty - veteraníssima do evento - assim como o Rappa e o CPM 22. “Eu vou equalizar você, numa frequência que só a gente sabe”. A adolescência da classe média no Brasil pode ser bem mais difícil do que se imagina. Haja ritalina. Todo mundo no João Rock é meio filho órfão do Renato Russo? “Será que vamos conseguir vencer?” Que escola, que árvore genealógica musical!

Fiquei lá na sala de imprensa mascando biscoito de polvilho aos quilos, pensando: “Nossa, quem mais faltou? O Jota Quest, no mínimo. Como eu curtia as músicas do Nando Reis. Ele é o rei do Nananá. Achava o Zé Ramalho um puta cantor de churrascaria e precisei dropar muito livro cabeça e ver muito cinema de caboclo para entender que ele, sim, é da pá virada.

Pitty - Foto: Caio Luiz

É o maior festival de rock do Brasil, segundo o G1. O lide deles representa muito bem como foi a edição de 2017. Olha só: “Reunir grandes nomes da música brasileira já virou tradição do João Rock, que é tão inquebrável quanto os acordes de guitarra mais famosos do bom e velho rock ´n roll. Na 16ª edição do festival em Ribeirão Preto (SP), a galera delirou com a mistura de estilos: cerca de 50 mil curtiram o evento, segundo os organizadores", diz o texto.

"Com 2,2 mil metros quadrados e uma estrutura de som impecável, o palco principal foi o altar do rock por mais de 10 horas. NDK, Machete Bomb, Armandinho, Humberto Gessinger, Nando Reis, CPM 22, Pitty, Capital Inicial, O Rappa e Emicida fizeram por merecer os aplausos. Marca registrada do João Rock, os encontros no palco levaram o público ao delírio.”

Eu poderia ficar aqui dando sucintas descrições empolgadas com adjetivos maneiros de cada apresentação, como o G1 fez, mas tudo foi transmitido pelo Multishow e a 89FM enquanto o público arrotava Skol. Então eu preferi falar com os organizadores do evento para ser “diferentão”. Toma aí:

Caio Luiz (Guitar Talks) - Hoje em dia o que há de mais mainstream no Brasil é o universo sertanejo universitário. Vocês enxergam o João Rock como um bunker de resistência do rock no Brasil?

Marcelo Rossi – Vivemos sim um momento do sertanejo que aglutina muita gente, mas o João Rock celebra a união que existe no rock. A gente entende que há espaço para o gênero, já que tivemos os últimos cinco anos de ingressos esgotados. O rock é forte e está vivo. É o 16º ano seguido e só há motivos para comemorar.

GT - Logo o festival atinge a maioridade. O que vocês estão planejando para os próximos dois anos?

Marques - Temos uma história que acabou tomando Ribeirão Preto. Há falta de hotéis e até de infraestrutura na cidade. Hoje planejar o festival e o futuro dele está mais ligado a entregar o conteúdo ao qual nos propusemos: rock nacional. E há quem questione isso, mas este caminho se provou correto. O tiro que demos no passado, ao não nos vendermos por uma bilheteria de olho em bandas de fora, se mostra hoje autêntico.

GT - No palco, o Humberto Gessinger mencionou 50 mil pessoas no festival.

Marcelo Rossi - O número real é 55 mil. É a primeira vez que repetimos a planta de palcos e estrutura do festival.

Luit Marques - Sim, o festival não pode ser “pilado”. Chegamos ao nosso total, essa é nossa capacidade e ano que vem será 55 mil da mesma forma.

Vanessa da Mata - Foto: Caio Luiz

GT - Por que fazer o recorte específico de música nordestina no Palco Brasil em 2017?

Rossi - No ano passado, fizemos uma edição voltada para o ano de 2002 porque foi quando o festival começou e reunimos com sorte as quatro das bandas que tocaram naquele ano (CPM 22, IRA!, Cidade Negra e Titãs). Nossa música é rica num país tão grande e há artistas que transcenderam o tempo. O palco Nordeste costura uma série de histórias e joga holofote sobre essas lendas que são Zé Ramalho, Alceu Valença, Lenine e Nação Zumbi.

GT - Por que o festival tem esse nome?

Marques - Ah, é uma homenagem aos ídolos e músicos bateristas. Escolhemos este instrumento como ícone do evento em vez da guitarra que costuma ter mais destaque. Há vários bateristas com o nome John. Como o viés da ação é brasileiro deixamos o nome em português, uma vez que remete à essência de um nome comum do interior. E também porque os músicos muitas vezes começam como João Ninguém e viram referência no futuro. Criamos o festival pensando num personagem.

GT - Como o rock foi concebido lá fora, o estilo é muito associado aos gringos. Qual foi o ensejo que deu vez para o rock nacional há 16 anos?

Rossi - Vou falar algo que ocorre na Europa que gostaria que acontecesse aqui. Há leis em países da Europa que exigem programação com maior porcentagem da programação de música local. Aqui no Brasil é o contrário. Cada dia parece que há menos espaço para bandas do nosso país... Muitas pessoas vão aos festivais e parecem que estão num shopping. Nem sabem quem vai tocar, só comparecem porque valorizam qualquer um que seja estrangeiro. Mas o rock nacional é trilha sonora de muita gente e decidimos apostar porque na época estávamos muito influenciados pelo Hollywood Rock. Então pensamos “Por que não?". Hoje é “Porque sim!”.

Caio Luiz: usuário de jornalismo.

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